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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Os pais dos filhos das mães.

Quando ele chega o mundo pára.
Não. Quando ele chega o mundo vira-se de pernas para o ar. Os olhos brilham, as vozes elevam-se e o mundo é um circo. Não, o mundo é um teatro. Não, o mundo é um parque de diversões.
Quando ele chega o mundo é tudo o que eles quiserem e o tempo não existe.

Se estão para sair do banho, já não saem, se estão a 5 minutos de acabar o jantar, passam a estar a 20. Se estão na fase mole mesmo antes de dormir espevitam e ganham mais uma hora de energia.

Às vezes é absolutamente irritante.

As almofadas vão para o chão, os brinquedos regressam à sala, a história é lida com teatro e aos gritos e com sombras e gestos e macacadas.
O pai tem esse papel. O de ficar mais tempo criança.

A mãe refila. Murmura baixinho injustiças porque basicamente já se estava a preparar para estar finalmente em silêncio. Já tinha andado de gatas a fazer de urso, já tinha jogado à bola, às princesas e com carros.

O pai é o que vira tudo avesso, quebra as regras que às vezes nem conhece, os atira ao ar, de pernas para baixo, lhes faz cócegas até chorarem.
É o que aproveita todos os minutos para que eles o vejam como um herói, como um pai deve ser.

O pai também tem medo que eles caiam mas não mostra e é por isso que aprendem a andar de bicicleta, subir às árvores e andar mais alto no baloiço. O pai também se preocupa com o futuro deles, se vão aceitar bem a escola nova, se vão aprender a nadar até ao verão, se vão ter saudades quando os pais passarem a noite fora, mas diz sempre que vai estar tudo bem. O pai também morre por dentro quando eles se esmigalham contra o chão e esfolam os joelhos, as mãos e a cabeça mas diz para se levantarem, que são fortes, valentes. 

O pai fa-los sentir-se especiais e únicos.

Há pais que não arrumam, não ajudam, não dividem tarefas, não cumprem horários, não sabem ficar sozinhos com eles, não os vestem bem, não lhes lavam a cara, não fazem jantar, almoço, não arrumam a cozinha, não estendem roupa, não penduram as toalhas.

Ser pai não é isso. Isso é ser marido e dava um livro (e ninguém quer verdadeiramente falar sobre isso porque há os maridos com tempo que ajudam, com tempo que não ajudam, sem tempo que ajudam, sem tempo que não conseguem ajudar mas que queriam muito).

Ser pai é conseguir arrancar sorrisos das birras, relativizar, empurrar para ir e segurar quando caem. É proteger as filhas cegamente e temer o futuro delas como mulheres e é fazer crescer os rapazes e ensinar-lhes o que é vida. A serem homens como deve ser.

Ser pai é muito (mas muito) mais do que ser o apoio da mãe.
É ser o pai.

*dedico este texto ao pai dos meus filhos por todos os motivos e ainda mais alguns. E dedico este texto ao meu marido que por sorte é também o pai dos meus filhos. 

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