6/02/2015

Não estava a contar com isto

Tive os meus dois filhos às 40 semanas. Duas gravidezes quase normais.
Dela, enjoos durante 4 meses, algum peso a mais mas nada de escandaloso, pernas muito inchadas. Dele, enjoos durante 7 meses, dores no osso do cóccix e uma noite a soro às 35 semanas por desidratação.
Dela, não tinha mais nada em que pensar a não ser naquela gravidez. Dele, tinha a mais velha em que pensar, uma mudança de casa e (muito) menos energia.
Fui acompanhada das duas vezes pela mesma médica que adoro, me percebe e atura os altos e baixos das minhas emoções. No mesmo hospital.
Preferi estar grávida dela do que dele. Mas amei estar grávida dos dois.
As previsões durante as ecografias eram de partos normais.

Dela, as águas rebentaram em casa, fui para o hospital e depois de 3 horas de trabalho de parto, nasceu, em meia hora. Chorou logo e eu também.
Dele, dei entrada às 9h00 da manhã e ele nasceu às 13h30. Nasceu com o cordão enrolado, demorou a chorar, e eu também.
Nunca tive contracções a não ser mesmo na eminência de nascerem.
Os dois foram como o esperado, parto normal.
Tinha esse sonho. Mas também tinha esse medo. E se não me dessem epidural - que queria. E se me doesse como nada neste mundo. E se não fosse capaz. E se não soubesse fazer força. E se não corresse bem.
Sei que tenho sorte. Ou que tive sorte. Ou que tenho um corpo propício a ter partos fáceis. Ou que é genética. Ou que tenho uma boa médica. Ou que tenho tudo isto junto. Ou que os astros estavam alinhados.
Há quem prefira cesariana e o parto normal seja assustador. Quem marque cesariana por razões médicas e/ou pessoais. Há quem tenha tido filhos por cesariana e não dê importância ao processo mas ao resultado final e não tenha sido impactante passar por isso. E há quem tenha tido cesariana e sinta o parto exactamente como eu senti, especial. E obviamente, foi.

Mas há gostasse de ter tido um parto normal e não conseguisse.
Não me tinha apercebido do tamanho dessa tristeza até ter pessoas muito próximas de mim a viverem essa impossibilidade. Principalmente quando a decisão é no momento. Quando se imaginou e de um momento para o outro as coisas mudam.
Este texto é para essas pessoas.
Talvez um dia passe por uma cesariana, não sei. E talvez aí compreenda melhor quando essas mães se sentem de certa maneira defraudadas quando imaginam. como eu imaginei, ver nascer um filho de forma natural e isso não acontece.
Essas mães são corajosas, fortes, dedicadas e não fizeram nada de mal. Por qualquer razão, seja ela médica ou anatómica o seu bebé não nasceu como "devia" (sinto que tenho que ter o maior cuidado com as palavras) e veio ao mundo de outra forma.
Não consigo colocar-me no papel dessas mães que desiludidas passam pelos primeiros momentos de mãe com o seu recém nascido de uma forma um bocadinho diferente.
Há mães que se sentem menos mães e é muito difícil compreender isto. É difícil a quem não passa pelo sonho e pela expectativa - mesmo que tenha já passado por uma cesariana - entender a mãe que quis e não pôde.
Essas mães, às vezes sentem-se incompletas mesmo que o seu filho tenha nascido saudável, forte, no tempo. E quem não viveu isto, não compreende.
Essas mães, às vezes demoram mais a fazer o clique com o seu bebé porque ao mesmo tempo que a parto acontece e o seu bebé nasce, vivem um momento de expectativa quebrada e há tempo para pensar porque o processo dá mais tempo para pensar. E a mãe pensa. Pensa tanto.
A verdade é que há quem desvalorize a pena que estas mães têm de não terem tido os seus filhos como imaginavam que iam ter. Há quem não compreenda e ache exagero.
Não é exagero.
Estamos 9 meses a imaginar. Seja o que for. Se é loiro, moreno, parecido com quem, se vai nascer saudável, rapidamente, se vai chorar, se vai ser gordinho, careca ou com muito cabelo, com os olhos abertos, rasgados, redondinhos, parecido com a mãe ou com o pai.
No final, queremos que venham bem.
E na maior parte das vezes, eles vêm bem. Ter o filho no colo supera tudo e o parto é uma passagem, um ponto de partida.
Mas há que ter um cuidado especial com as mães. Com todas elas, e com as suas expectativas que são diferentes e únicas. E que se caem, magoam. Às vezes muito.

Nota: Este texto, não serve exactamente para nada. É apenas um tributo. Porque sinto que o devo fazer. 

16 comments:

  1. Da primeira estava a contar com o parto normal e quando me disseram que tinha de ser cesariana, fiquei um pouco desanimada sim, mas passou rápido. Não fiquei a pensar mais nisso e se era assim que tinha de ser, era ir em frente. Acho que a maneira como nascem não influencia em nada :) Beijos

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    1. Isso é porque tu és uma mulher muito prática. Mas há pessoas cujo o sonho é diferente. Para essas pessoas influencia. O amor não, mas a experiência. Beijinhos!

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  2. Tinha um medo incrível do parto normal...para mim era cesariana com anestesia geral... lol...comecei com contracções ás 18h do dia 29 de Outubro de 2010, ás 21h estava no hospital e a medica mandou-me para casa tomar um banho relaxante e que não ia ser fácil mas ele não ia nascer já... Não preguei olho a noite inteira... não sei quantas vezes me tentei deitar... quantas vezes me tentei sentar... quantas voltas dei á mesa da minha sala... Ás sete da manhã do dia 30 de 0utubro de 2010 o meu marido foi tomar banho... pegámos em tudo e fomos para o hospital... não aguentava com dores... Estava com 3 dedos de dilatação... já estava em trabalho de parto... fui toda preparada disse que queria epidural. Claro que queria epidural... E aquilo dói mesmo a entrar... lá me deitaram numa cama onde supostamente ia ter o meu filhote, o meu marido sentado numa poltrona aguardava ansioso, preocupado e nervoso... a roupinha do meu A foi toda colocada numa bancada tipo fraldario á espera do principezinho... passaram horas e horas... a familia foi lá...claro que eu nem os vi...iam ligando para o R (meu marido) e ele ia a sala de espera... e que espera... eu ia inchando e desesperando...ás 21h estava com 7 dedos de dilatação e ás 23h continuava com os mesmos 7 dedos de dilatação... fui para o bloco... o pai já não assistiu :( eu queria mesmo que ele assistisse mas no público não é permitido... Aquilo dói também... faz impressão... e sente-se muita ansiedade e emoção... só não se grita loucamente mas também elimina a probabilidade de se ficar incontinente... e olhem que tenho algumas amigas que ficaram... fiquei feliz ao ver o meu filho... não o achei lindo porque saiu todo torto devido ao exagero de horas que estivemos em trabalho de parto...se continuássemos, provavelmente eu ou ele não estaríamos cá... ou os dois... senti que aquilo estava mesmo num mau caminho... eu nao estava com um bom pressentimento e felizmente acabou em cesariana... nada de forceps como insistem em fazer em muitos hospitais ainda e que por vezes também acaba mal...Não fiquei desiludida nem me senti menos mãe por ter feito uma cesariana... aliás é bem giro e bem mais fácil mostrar ao meu filho a cicatriz e dizer que ele esteve na minha barriga e o medico o tirou por ali... se fosse um parto normal não sei bem como ia mostrar e dizer a coisa! Ahahaha!!! Esta agora foi só para descomprimir... Frustrada sim sentia-me por andar anos e anos sem qualquer contraceptivo e não conseguir engravidar... estar grávida... ter um filho que tanto desejava... ser mãe... amamentar!!! Esse era um sonho!!! O parto... nem tanto... nada mesmo!!! Adorei vê-lo nascer e estava um pouco torto mesmo... mas adorei mais ainda vê-lo crescer...os dias foram passando e lá ficou direitinho e lindo! Um bonequinho mesmo!!! Felizmente cheio de saúde e perfeitinho!!!

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    1. Que bonito Elsa. Felizmente todas lidamos com as coisas de maneira diferente e é claro que todas queremos é que venham bem e com saúde.
      Um grande beijinho e parabéns, já não me esqueço da sua história porque faço anos a 30 de Outubro. :)

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  3. Muito bonito este seu texto. :)
    No dia em que a minha filha nasceu, eu comecei a sentir contracções regulares por volta da meia noite. Dei entrada na maternidade às 2 da manhã e a médica que me assistiu (que por coincidência foi a que acompanhou a minha gravidez) disse-me que ia dar consultas noutro sítio durante a manhã, mas que voltava para me ver e talvez ainda conseguisse acompanhar o parto. As horas passaram. Ela foi. Voltou. Passaram as 13h. As 14h. As 15h. Às 18h a minha filha ainda não tinha nascido, embora eu tivesse dilatação completa. Veio uma médica. E outra. E mais outra. Talvez o bebé fosse grande demais. Ou talvez estivesse transverso. A minha filha acabou por nascer de cesariana de urgência porque já tinha passado demasiado tempo e era arriscado esperar.
    Esteve sempre perto de mim, e amamentei-a na primeira hora de vida.
    Eu não estava preparada. Estava preparada para não conseguir amamentar. Para não saber como segurá -la ou como dar-lhe banho. Não estava preparada para não ter um parto normal.
    Se hoje me sinto menos mulher por isso? Não. Mas nunca imaginei que pudesse ser de outra forma. A minha avó teve 7 filhos de parto normal. A minha mãe 3. Claro que o meu bebé ia nascer de parto normal!
    Fica alguma tristeza. A sensação de que o corpo nos falhou naquilo que é o mais básico: ter filhos.
    E alguns dias, alguns meses depois percebemos. Que ser mãe é muito mais do que isso. Que o parto é uma gota na vida dos nossos filhos. É o que vem depois que faz a diferença!
    Hoje gosto muito da minha cicatriz. Às vezes olho ao espelho e vejo nela um sorriso (tem mesmo o formato de um sorriso! ). E é isso mesmo que representa. Um sorriso que ficou para sempre gravado quando a minha bebé nasceu. :)

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    1. Que bonito. Adorei o seu comentário (que só vi agora, não sei porquê). O que importa é que as nossas expectativas se resolvam... e os filhos apagam todas as tristezas. Um beijinho.

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  8. Sou mãe de duas meninas nascidas de cesariana.
    A primeira nem tive escolha... :(
    A segunda tentei por tudo durante horas. E chorei durante semanas...
    Obrigada.

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    1. Só vi agora este comentário... :( um grande beijinho. Acabamos por supercar tudo na vida mas há coisas que custam muito.

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  9. Sou mãe de uma menina e de um menino. No primeiro parto já contava com isso uma vez que foi parto provocado às 41 semanas e durou muito todo o processo. Ao longo das horas fui-me mentalizando que seria uma cesariana e, apesar do processo ser um bocadinho "feio", correu tudo bem. Foi-me dito que numa futura gravidez provavelmente teria de fazer nova cesariana.
    Na 2ª gravidez, a médica que me acompanhou sempre me deu muita esperança num parto natural. Tudo correu lindamente, o trabalho de parto iniciou espontaneamente e eu estava feliz e cheia de esperança num parto natural. O bebé estava bem posicionado e eu sentia as contracções (no 1º nunca as senti). Estava preparada para parir, finalmente! Por erro médico, por um excesso de epidural dada de uma forma abrupta, o bebé entrou em sofrimento. Eu também fiquei a patinar e seguimos de urgência para cesariana. Achei este segundo processo ainda mais frio, talvez pela desilusão. Ainda hoje não sei porque me sinto tão triste ao recordar este 2º parto mas marcou-me muito. Foram dias difíceis os que se seguiram, com uma semana de internamento na Neonatologia e com um turbilhão de emoções que jamais pensei sentir.
    Obrigada pela partilha e pelas palavras!

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    1. Só vi agora este comentário... deve ter sido muito duro. Tenho muitas amigas que vivem com esse sentimento também. Força e um beijinho.

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  10. Ola. Não conheço o blog há muito, mas tenho vindo a ler os posts e adoro... sou mãe, de um menino de 16 meses. Prematuro (graças a Deus, não muito, mas prematuro!). Tive uma gravidez de risco.. Não me recordo quando foi, mas chorei. No momento em que a Dra me disse que ia ser cesariana. Chorei! Passava das 30 semanas, e o objetivo era "chegar as 39" depois as expectativas eram "chegar às 37"... e nasceu às 35 numa cesariana de urgência! Queria muito, muito parto normal! Idealizava ter o bebé e porem-mo no peito... queria tanto sentir aquele calor em mim, aquele enamoramento especial... NÃO senti... Infelizmente não senti. Tiraram-no de mim. Chorar logo. Eu, esperei, a expectativa era se iria para a incubadora. E eu em silêncio esperei a resposta. Ia para a incubadora uns dias... Vi-o, apaixonei-me por ele nesse momento. Esqueci-me de muita coisa desses tempos, mas nunca daquele olhar. Toquei-lhe dei um beijo e levaram-no. Em momento nenhum me senti menos mãe. Não pecisei de nenhum click... nenhuma mãe tem que se sentir mais ou menos mãe pela forma como teve, como escolheu ou como aconteceu ter um filho. :) beijinhos e felicidades...

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  11. Ola. Não conheço o blog há muito, mas tenho vindo a ler os posts e adoro... sou mãe, de um menino de 16 meses. Prematuro (graças a Deus, não muito, mas prematuro!). Tive uma gravidez de risco.. Não me recordo quando foi, mas chorei. No momento em que a Dra me disse que ia ser cesariana. Chorei! Passava das 30 semanas, e o objetivo era "chegar as 39" depois as expectativas eram "chegar às 37"... e nasceu às 35 numa cesariana de urgência! Queria muito, muito parto normal! Idealizava ter o bebé e porem-mo no peito... queria tanto sentir aquele calor em mim, aquele enamoramento especial... NÃO senti... Infelizmente não senti. Tiraram-no de mim. Chorar logo. Eu, esperei, a expectativa era se iria para a incubadora. E eu em silêncio esperei a resposta. Ia para a incubadora uns dias... Vi-o, apaixonei-me por ele nesse momento. Esqueci-me de muita coisa desses tempos, mas nunca daquele olhar. Toquei-lhe dei um beijo e levaram-no. Em momento nenhum me senti menos mãe. Não pecisei de nenhum click... nenhuma mãe tem que se sentir mais ou menos mãe pela forma como teve, como escolheu ou como aconteceu ter um filho. :) beijinhos e felicidades...

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