7/21/2015

Só mais cinco minutos.

Preciso apenas de dizer que antes de ter filhos dormia o mais que podia e todas as horas a que tinha direito.
Sempre tive algumas insónias, dificuldade em adormecer, mas assim que adormecia nem um comboio me acordava. Era de manhã que melhor dormia. Um sono pesado, cheio de sonhos. Enorme.
Antes de me casar deitava-me às dez da noite. Sem namorado e a trabalhar, as noites ao dia de semana serviam para dormir.
Casei e passei a dormir menos com mais programas, mais vida a dois, mais vida com amigos. Ainda assim, as manhãs eram minhas e dormia. Dormia.
E um dia ela nasceu.
Sem fazer ideia do que era cuidar de um filho fiz sempre o que achei melhor, segui conselhos do pediatra e aceitei o que tinha porque ela era o meu normal.
Desde que nasceu, até fazer 7 meses nunca dormiu mais do que 3 horas seguidas. A logística até essa altura passou a ser à volta desse corredor de tempo minúsculo.
Tomar banho, arrumar, almoçar, vestir, jantar, compras, passeios, visitas, viagens. Tudo era feito a pensar nas três horas - com muita sorte - que a Leonor fazia seguidas.
Dei de mamar até aos 5 meses e meio e até aos 5 meses e meios dei de mamar de duas em duas horas. Sempre. Sem excepção.
Quando começou a crescer e até entrar na escola com um ano e pouco, mal comia. E por comer mal, dormia mal.
Na escola dormia bem, em casa da minha mãe dormia bem, na sogra dormia bem. E em casa não dormia.
Durante dois anos e meio nunca dormimos uma noite inteira tirando as vezes em que não estávamos com ela.
Pedimos ajuda a especialistas do sono, psicólogas, homeopatas e por nossa culpa nunca seguimos nenhuma das opções porque ela hoje até dormiu bem, coitadinha. As fases boas faziam-nos constantemente esquecer as más.
Quando demos por nós a vida era em função do sono da Leonor. Havia medo em ir dormir, de deitar tarde, de combinar um jantar em casa porque a probabilidade de não dormir seguido era gigante. Dormimos muitas vezes no chão do quarto, camas improvisadas ali ao lado, cheguei a dormir na cama de grades, grávida de 6 meses e no chão, grávida de 9.
Não havia padrão no sono dela e por isso não havia padrão na nossa reacção.
Cansados, exaustos, fartos, um contra o outro, a desistir, sem soluções, frustrados, impotentes. Sempre a ouvir todas as opiniões que de fora são tão fáceis, sempre a responder em defesa dela, por pena dela porque não dormir nunca é bom sinal. E será fome, será medo, será excesso de cansaço, ela ainda faz duas sestas? Se calhar não precisa de sesta, sai do quarto, fica à porta, dá-lhe leite, nunca lhe dês, compra um boneco, compra um ó ó, fica ao lado da cama, nunca fiques, canta uma música, não a habitues mal, é pequenina - precisa dos pais, fala com ela, ignora-a, dá-lhe palmada se sair da cama, não feches a porta, encosta a porta, nunca lhe mudes a rotina, cansa-a, fá-la correr, ela que vá para a rua,  põe luz de presença, fala-lhe dos medos, não a leves para a tua cama, leva-a se isso vos fizer dormir.
E o ciclo de uma casa que não dorme é explosivo e contamina tudo à volta.
Não há paciência, não há interesse em diálogo nem estratégias nem teorias e de repente reage-se avulso e ao momento.
Hoje é assim e amanhã logo se vê.
Mais vale não dormir. Pensei isto tantas vezes, fiz isto algumas. A acordar uma média de 9 vezes por noite quando a Leonor tinha 2 anos e meio, a capacidade de raciocínio estava a tornar-se zero.
A um mês de nascer o meu segundo filho tudo o que pensava é que não podia piorar. Não é possível dormir menos nem andar mais cansada.
A rotina que era igual todos os dias com horas absolutamente fixas mudou. Ela mudou. O padrão de sono dela apesar de instável era: uma hora no quarto para adormecer. Olhos fechados. Duas horas de silêncio e depois disso acordar entre 6 a 9 vezes até de manhã.
Passou a demorar o dobro para adormecer.
E foi assim até ao irmão ir para o quarto dela, com 5 meses.
Hoje, dormem os dois. Aliás, hoje dormimos os quatro, Praticamente sem acordar.
A privação de sono (relacionada com os filhos, porque não é doença nem tem diagnóstico) não é levada a sério porque à partida a culpa é dos pais ou o problema é dos filhos, quando deveria ser considerado um problema de saúde pública.
Não dormir afecta tudo aquilo que me consiga lembrar: raciocínio, humor, discernimento, desempenho no trabalho, probabilidade de errar, capacidade social, alimentação, vida conjugal, vida familiar, condução...
Muitas pessoas nestas condições - que existem tantas - tem que afectar a economia, tem que afectar o país, tem que afectar o mundo.
Este assunto deve ser considerado importante porque destrói.
Não dormir bem uma noite, algumas noites, aguentamos. É uma tosse, uma fase de pesadelos, uma mudança.
Estar 3 anos sem dormir é saúde pública que precisa de ser levada a sério. E muito.
Ele dormiu das 20h às 08h da manhã aos 4 meses e achei mesmo que foi Deus a recompensar. Ajudou-a a dormir melhor e as nossas conclusões foram que primeiro não gosta de dormir sozinha e segundo a nossa disponibilidade para ela mudou quando ele nasceu. Deixámos de poder responder a todas as suas inquietações e contra todas as nossas expectativas, isso tornou-a muito mais segura.
O meu desejo é que um dia seja possível ter acesso a recursos, que seja discussão pública, que faça parte dos encargos políticos esta coisa tão simples e tão estupidamente importante que é dormir.






3 comments:

  1. Este texto poderia ter sido escrito por mim...e não deixei de sentir medo ao ler, um arrepio nas costas...o meu BabyG só tem 15 meses...e ler isto faz-me ver que pode durar, que pode continuar! tal como vocês, já pedimos ajuda, já visitámos terapeutas, psicologos...mas nada ajuda porque nunca levamos nada até ao fim. No nosso caso ele dorme connosco e vamos tentando o melhor possível. Mas afecta tudo sim. Uns dias parece tudo bem e depois voltam 3 e 4 noites de directas e tudo desaba.

    ReplyDelete
  2. Obrigada por este post que relata exatamente o que se passa em tantas casas por esse Mundo fora...e a minha não é excepção! Sou mãe de uma menina de 3 anos e meio e desde que nasceu que não dorme bem. Claro está, em casa dos avós dorme a noite toda!
    Posso confirmar: a privação do sono é uma verdadeira tortura que nos destrói por completo mas não é levada a sério por ninguém. Falei com o pediatra, médico de família, homeopata, osteopata...tudo! E as respostas foram sempre vagas ou nulas. "É uma fase; faz parte do feitio; "há-de passar"...foram as respostas que obtive ao longo destes anos. Só melhorou um pouco com o tratamento homeopático mas não resolveu o problema em si. Acho que só quem passa por isto é que percebe verdadeiramente o pesadelo que isto é e as consequências que implica. Acalento a esperança que há-de passar e sonho com as noites em que possa dormir 6/7 horas seguidas sem interrupção. :)

    ReplyDelete
  3. Acabo de descobrir este blog e já me identifico com tantas coisas!
    No caso do não dormir não consigo nem imaginar como foi nessa cabecinha! Do primeiro filho não dormi 3 meses e do segundo foram só 2 meses a acordar de 2 em 2 horas e de ambas as vezes quase enlouqueci, literalmente! Não sei como seriam 3 anos! Dormir é para mim sagrado! Mas fico muito contente por saber que a companhia que os irmãos fazem um ao outro é assim saudável! Por cá a partilha de quarto está a correr lindamente!

    ReplyDelete