9/30/2015

As vezes em que vos peço desculpa

Só temos noção do quanto os nossos pais nos amam quando os nossos filhos nascem. Até lá andamos sempre meios à deriva sem compreender bem este amor.
Parece-nos exagerado. De tal maneira, que a certa altura do nosso crescimento acreditamos piamente que os nossos pais nos odeiam e é recíproco, também os odiamos sem sabermos nada sobre amor, ou sobre ódio.
Quando os nossos nascem entramos numa fase de redenção/compensação em que compreendemos absolutamente tudo aquilo por que os nossos pais passaram?
Como pagavam as escolas? Como faziam férias de um mês? Como é que conseguiam gerir mais filhos, trabalhar exactamente o mesmo ou mais e receber ainda menos?
Os nossos filhos nascem e o nosso objectivo de vida passa a ser o seu bem estar e o constante minimizar do nosso sentimento de culpa. Que nos acompanha, sabe-se lá porquê, até porque somos uma geração absurdamente mais consciente do que a dos nossos pais. Não mais preocupada mas mais consciente.
Porque trabalhamos, porque não trabalhamos, porque trabalhamos demais. Porque os temos que deixar na escola aos 5 meses, aos 18 meses, aos 3 anos.
Porque temos pouco tempo, pouco dinheiro, pouca disponibilidade.
Porque podíamos estar ainda mais presentes, ainda mais disponíveis, ainda mais conscientes.
Porque não têm actividades extra curriculares, porque têm demais.
Porque fazemos tudo por eles, porque podíamos fazer mais.
Vivemos a pedir-lhes desculpa, por dentro.
Desculpa mas a mãe tem que ir, desculpa mas a mãe não pode, desculpa porque o pai vem tarde...
Somos uma geração de pais que, sabe-se lá porquê, quer fazer melhor mesmo sabendo do esforço enorme que os nossos pais fizeram para nos manter inteiros, com saúde, educados e felizes e que o conseguiram, de maneira diferente, mas conseguiram.
Somos uma geração completamente dedicada e também preocupada com o que sentem os filhos. E porque os queremos sempre felizes, vivemos sempre preocupados e a pedir-lhes desculpa.
Desculpa se andei demasiado preocupada contigo que não te deixei ir, cair, ser livre, sofrer, tropeçar na vida, chorar.
Desculpa se por me preocupar tanto fomos menos livres. Eu fui menos livre.
Desculpa se exagerei ao deixar-te na escola e se chorei depois e tu me topaste a milhas.
Desculpa se torci o nariz ao miúdo que te empurrou no jardim em vez de desvalorizar.
Desculpa por olhar para ti e te ver lá no topo do mundo sem qualquer filtro. Desculpa por se ao tentar sempre o meu melhor às vezes exija demasiado de mim e que me prefiras quando tento menos do que quando tento demais. Desculpa por ter perdido algum tempo nisto e espero que quando eu tiver chegado aos calcanhares da minha mãe, me vejas como a vejo, cheia de imperfeições que já esqueci.
E já agora obrigada. Por todos os desculpa que te pedi e por todos os que espero ainda pedir. Lá estarei para errar mil vezes e tentar fazer melhor outras tantas.

A propósito disto, da querida Joana, que vive a pedir desculpa como eu.

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