Eles gostam mais das mães do que da escola.

Quando era pequena a ideia de escola aterrorizava-me. Lembro-me de ter sido sempre envergonhada. Não me lembro de estar sozinha e sempre tive amigos, poucos mas bons mas também nunca fui de grandes grupos.
Primeiro dia da Leonor. 
No entanto, tudo me fazia doer a barriga.
Chegar à escola no primeiro dia era o pior. 
A barriga doía-me tanto que achava mesmo não ser capaz de aguentar. Mas havia mais. Atravessar pátios e achar que toda a gente olhava para mim, escolher o lugar na sala, no refeitório, os testes, as visitas de estudo... 
Um dia, uma amiga disse-me que o Luís gostava de mim. Todos os intervalos até ao final do dia passei-os na casa de banho para fugir àquela realidade.
Temia festas que envolvessem dança. 
Evitava dormir em casa de amigas e inventava desculpas (desculpem amigas).
Sinto que perdi muito. Com o tempo foi passando e continuo envergonhada e tímida mas nada a ver com esses tempos. 
Quando os meus filhos nascem peço algumas coisas a Deus. Que tenham saúde. Que não tenham o meu tom de pele - não tiveram sorte coitados - e que sejam mais destemidos e mais confiantes que eu. 
Primeiro dia do Zé Maria
Tento, sempre que posso incentivá-los, principalmente a ela que nos primeiros 3 anos de vida era tímida, a irem. Sem medo. 
Quando ela foi para a escola, com 1 ano e 1 mês chorámos as duas durante 15 dias. Ela não comia, não dormia, não sorria. Quando a ia buscar chorava como se a tivesse abandonado e estive praticamente a desistir daquela tortura que logicamente sabia que a pouco e pouco ia melhorar. 
Este ano foi a vez dele entrar na escola, com um ano e meio, depois de ter estado todo esse tempo comigo. 
Tive a sorte de estar com este bebé todos os dias da sua vida durante todo este tempo. 
Abracei-o sempre que pude e vivi-o em cada momento,  até naqueles em que julgava estar no meu limite. 
Fiquei a conhecer todas as suas manias e vontades e a forma como reagia a cada novidade na sua vida. O primeiro dia na escola foi a primeira vez que me surpreendeu. 
A reacção dele foi o oposto de tudo aquilo que é. Ficou sentado no cantinho da sala, com a chucha, o ó ó, caladinho (!!!), choramingas. Deixei-o só uma hora mas quando cheguei chorou, disse embora muitas vezes seguidas e soluçou durante uma hora. 
Sim. Sei que o tempo vai ser o nosso melhor amigo e que eles melhoram e que daqui a 15 dias ninguém o segura, que vai ser ele próprio muito rapidamente, adorar a escola e estar completamente integrado e à vontade. 
Fotografia que uma amiga tirou e me mandou do Zé Maria
na sala. 
Mas. 
Mas eles preferem as mães. 
Eles preferem as tias. Preferem as avós. Preferem as suas casas. Eles preferem o nosso colo. Eles preferem o nosso mimo. A nossa atenção. 
Eles não ficam anti sociais na sua casa, nem mudos, mimados ou atados. Eles ficam felizes. 
Eles preferem ser únicos a estar no meio de 12. 
Eles sabem com o que podem contar, que lhes damos a chucha na hora certa, que não nos importamos com as horas, que basta um mexer nas orelhas ou no cabelo para sabermos que está na hora de dormir, que não gostam de leite, que gostam de comer sozinhos, que têm a mania de ter uma bolacha em cada mão nem que seja a mesma partida em dois, que tutu é chucha, gá gá é bolacha e que gá gá não é a mesma coisa que lhá lhá e que isso é água. 
Porque há qualquer coisa em nós que é do mais puro e egoísta que há e que nos diz que ninguém neste mundo inteiro os vai conhecer como nós nem os compreender como nós. 
Esta fotografia não tem nada a ver com a reacção da Leonor
este ano.
Nunca chorou e está feliz.  
E se não lhes dão colo na altura certa, e se o mimo não for suficiente, e se ele pedir mil vezes água e não o perceberem e ele ficar cheio de sede...? 
E se cair e ninguém reparar?  
A certa altura levanta-se. 
15 dias depois ou mais ou menos vai perceber que aquele é um mundo diferente da sua casa e vai ficar frustrado por não lhe darem exactamente o que quer no minuto em que quer, vai perceber que aquele colo é para dividir. Que os brinquedos são para partilhar. 
E que a mãe, ou o pai a certa altura chegam. Para os levarem para o seu lugar preferido. 
Vai crescer. 
Encontrar uma faceta sua diferente, ter amigos pequeninos como ele que também estão cheios de medo e outros que já correram a sala toda a explorar e seguir esses ou seguir os outros. 
Vai ser feliz à mesma. Ser, se tudo correr bem, mais confiante e vai ter que se fazer à vida.
Ele e a mãe. 
Aprender a estar aquele tempo sem ele, rentabilizar o tempo, aproveitar o tempo. 
Estar na escola não o vai tornar numa criança melhor. Apenas numa criança que está na escola. 

A todas a mães que sentem o mesmo, que vão trabalhar ou para casa de coração apertado um beijinho. Vai correr tudo bem. 

Comments

  1. Pela primeira vez ouvi, ou melhor li, alguém a descrever o que eu sentia na escola... "A barriga doía-me tanto que achava mesmo não ser capaz de aguentar. Mas havia mais. Atravessar pátios e achar que toda a gente olhava para mim, escolher o lugar na sala, no refeitório, os testes, as visitas de estudo... (...) Temia festas que envolvessem dança."
    Sobre a ida deles para a escola, apesar das minhas andarem desde os 5 meses (snif snif, mas teve mesmo que ser), e nunca terem chorado, senti isso tudo. E há semana voltei a sentir o mesmo pq mudaram de escola...conhecer novas pessoas que não as conhecem de lado nenhum, não sabem as suas "manhas", fazer novos amigos.. enfim, um aperto no coração, mas que passa.
    Bjs

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    1. Um beijinho Maria Joana. Sim, tudo passa. Obrigada pelo comentário. :)

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  2. Já passei por essa agonia há 2 anos e agora novamente. O meu bebé tem 4 meses e eu estou prestes a ir trabalhar, só me apetece chorar. É.muito cruel.

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  3. Já passei por essa agonia há 2 anos e agora novamente. O meu bebé tem 4 meses e eu estou prestes a ir trabalhar, só me apetece chorar. É.muito cruel.

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  4. Já passei por essa agonia há 2 anos e agora novamente. O meu bebé tem 4 meses e eu estou prestes a ir trabalhar, só me apetece chorar. É.muito cruel.

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    1. Custa mesmo muito. Força. Um beijinho.

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