9/01/2015

Ensinar a ser feliz.

Às vezes, vou com ela de mão dada, pela rua e vejo-a a andar como eu, a atirar o cabelo para trás, vejo-a usar as mesmas expressões que eu uso e a dizer caramba!, bolas! ou outras das palavras menos feias que uso quando estou irritada mas não posso dizer pior.
Às vezes ela imita o meu tom quando discuto. E ele estica o dedo como eu ou franze as sobrancelhas.
Às vezes vejo neles os meus tiques, as minhas manias (tantas das minhas manias) os meus gestos, o meu jeito.
Vejo que ela trata o cão exactamente como eu o trato e ele exactamente como o pai, que ela o manda sair do tapete e ele se atira para cima dele a brincar.
Às vezes vejo neles o meu marido.
Vejo-nos aos dois, constantemente neles.
Sem que eu dê por isso, os minúsculos 4 anos dela absorveram tudo aquilo que somos de bom e de mau e ainda a procissão vai no adro.
Também vejo as nossas - muitas eu acho - coisas boas. Vejo-os a ser bons com os outros, a agradecer, a pedir desculpa, a ser prestáveis.
Vejo-os de sorriso na cara.
Às vezes peço para que não me passe ao lado aquilo que vejo. Porque aquilo que eu vejo neles é o que vêem em mim.
Se sou tímida e ela é, se sou sensível e ela também, se coro e ela também cora nem eu nem ela podemos evitar.  Tudo o resto sim.
Não sou apologista de que os pais se devem esconder e aos sentimentos, que se estiverem irritados não podem mandar um berro porque as crianças estão a ver, bater na mesa, soltar um palavrão. Não quero ser o mito que cai. Quero ser imperfeita desde o dia em que os trouxe ao mundo e viver sem essa pressão imensa.
Não são os momentos que me assustam, esses eles vão compreendendo conforme as circunstâncias. O que mais me assusta é a essência.
Se sorrio para a vida, se lhes mostro que o mundo é um lugar bom para viver e não um sítio aterrador cheio de gente má, se confio na pessoa que me dá uma bolacha no jardim ou se recuso porque acho que vamos todos morrer intoxicados, se bufo perante o trabalho, se refilo no trânsito e se o trânsito me interessa, se sou preguiçosa. Se a nódoa no sofá me estraga o dia ou se encolho os ombros porque tenho dois filhos com menos de 5 anos e os deixei beber sumo a ver televisão e eles entornaram mas paciência, daqui a dois anos muda-se a capa.
Terei sempre defeitos que podem fazer parte de mim, que podem ser difíceis de mudar, impossíveis de mudar e que eles vão, quer eu queira quer não, absorver e um dia culpar-me porque podia ter feito melhor, mas a minha essência é o que os vai fazer ser.
A minha obrigação não é tanto conter-me quando estou irritada ou chateada ou cheia de problemas que não posso evitar, falta de dinheiro, doenças, chatices no geral. A minha obrigação é mostrar-lhes como viver a vida para além de isso tudo. Como viver a vida também com isso tudo.
Ensinar a sorrir para a vida e mostrar que há sempre qualquer coisa boa a retirar de tudo é muito mais difícil que culpar o mundo inteiro.
Esse é o grande lema da minha vida. Isso e ir a andar pela rua, olhar para trás e vê-los. A rir. A assobiar e a tropeçar nos próprios pés. Como eu. Como o pai.

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