1/12/2016

Os dois bebés que eu perdi.

Antes de engravidar da Leonor, seis meses antes, estive grávida durante 6 semanas.
Fiz um teste (aliás vários), saltei de alegria. Fizemos planos,  demos nomes, sonhámos,  idealizámos.
Contámos logo aos nossos pais e irmãos e a alguns amigos próximos, tal era o excitamento.
Fui imediatamente ao médico que desvalorizou a gravidez por ser tão recente e usou a expressão - isso foi feito ontem e ainda não é nada!
Tenho ciclos curtos o que significa que  me apercebo cedo de quando estou grávida, por isso as seis semanas de gravidez significam duas semanas para interiorizar a notícia. Para gozar a notícia.  Para amar a notícia. Para perceber que a simples perspectiva de ter um filho jamais é nada.
De um dia para o outro, dores que não quero recordar e uma hemorragia,  perdi o primeiro bebé.
Fui às urgências do hospital e depois de uma ecografia e uma análise a médica diz que:
- não há nada aqui!
Nem mais nem menos, foi isto. Lembro-me que era quinta feira e que pedi uma baixa de um dia de trabalho e que ma passou com nariz torcido.
Chorei dois dias na cama sem atender telefonemas e fiz o meu luto e ultrapassei a imensa desilusão. 
Fiquei à espera da Leonor seis meses depois  (tive esta sorte) e após 2 anos e meio, do Zé Maria.  Sem grandes preocupações nem complicações, os dois cresceram bem e tão saudáveis na minha barriga. 
Dia 17 de Agosto passado, depois de uma semana enjoada - o meu primeiro sintoma - e de barriga inchada fiz um teste de farmácia e deu positivo. 
Não estava (nada) nos nossos planos e confesso que primeiro me assustei e depois sorri e chorei de alegria.
E é impressionante como poucos dias bastam para falar de nomes, mudanças no quarto, mudanças na casa, logística de escolas, dinheiro, falta de dinheiro,  tudo se resolve, que vem sempre por bem, o carro que vai ter que servir.
Como um bebé que não vemos, mal sentimos se torna a coisa mais importante da nossa vida.
E depois, dores outra vez e hemorragia outra vez e hospital fora de casa, longe de casa.
- sabe que uma gravidez de tão pouco tempo não é bem uma gravidez mas vamos ver.
E viu e não viu nada.
Foi uma gravidez bioquímica que significa que é uma gravidez que termina muito cedo (ou nunca chega a ser), antes de se conseguir ver numa ecografia mas que os testes de gravidez já detectam.
Há muitas mulheres que passam por este tipo de gravidez sem a reconhecerem. Pensando tratar-se de um pequeno atraso.
Não foi o meu caso, reconheci-a imediatamente porque nunca me atraso,  e porque todo o meu corpo me diz que estou grávida.
Fiz uma análise Beta HCG e os resultados foram baixos e representativos de uma gravidez que não evoluiu.
Fui chamada pela médica que me deu a notícia e que depois me perguntou se andava a tentar engravidar. Não percebi o interesse da pergunta até porque não tinha mostrado nenhum sinal de compaixão até então.
Eu disse que não,  que tinha acontecido.
Ela corrigiu-me e disse que não tomar a pílula ou qualquer outro método contraceptivo era estar a tentar e que se eu estava a tentar que deveria ter tido consultas e cuidados pré natais e ter tomado as devidas vitaminas e suplementos e continuou dizendo que "tem primeiro que ver se está tudo certinho e só depois engravidar".
Senti-me adolescente, grupo de risco, culpada.
E saí em lágrimas. 
Uma gravidez dura o tempo que dura no coração dos pais. Ninguém é ninguém para nos retirar importância com termos ou razões técnicas que não nos interessam nada. Ninguém é ninguém para nos planear a vida e decidir se devemos ou não tomar o quer que seja.
Ninguém nos diz se devemos ou não ser católicos, se fomos negligentes depois de perder um bebé.  Ninguém deveria ter nas mãos o poder de lidar com assuntos que merecem a capacidade médica e ainda mais a humana e não saber como o fazer.
Desta vez não tive dois dias para chorar.  Chorei no carro,  a caminho de casa - que não era a minha - e chorei à mesa quando me apercebi que podia beber um copo de vinho à vontade e comer o tomate sem perguntar se tinha sido bem lavado. 
Depois abracei-me a eles,  agradeci por eles e continuei a vida por eles.

Nota para a família e amigos que se preocuparam a ler isto: eu estou bem e é mais fácil quando já passou.

Depois de chegar do hospital
Eles.

13 comments:

  1. Estou sensibilizada com a coragem e força que teve, é inspirador. Apesar de muito triste e de estar lavada en lagrimas. Pela parte menos boa, que ninguém devia passar e pela melhor noticia que a natureza lhe deu!
    Parabéns, pela força e por três filhos maravilhosos e felizes!
    Que assim seja sempre.
    Beijinhos,
    Carolina Melo

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  2. Revi me nestas palavras...dia 4 de Janeiro de 2016 as 16h15m nasceu o meu pequenino Matheus com apenas quatro meses dentro de mim... as águas rebentaram-me nesse dia de manhã depois de uma noite inteira de contrações e os médicoa dizerem que eram apenas dores pois era muito cedo não podia nascer já... eu sei bem o que são contrações sou mãe de três princesas e sentia que o meu pequenino não estava bem lutava mas estava a ficar sem forças... distante de casa num país que não é o meu e sem quase falar nada de francês deixaram me na sala de partos sem água para o meu pequeno lutar e eu só olhava para as horas a passarem e pensava por favor aguenta ... imposivel não é mas uma mãe pensa sempre que é possivel ... o meu marido e nosso amigo chegaram para poder traduzir ... mas não foi preciso percebi logo não havia nada a fazer simplesmente esperar que ele acabe por sair sozinho ... foram as palavras da sage femme ... caiu-me tudo tinha o meu sonho dentro de mim a morrer aos poucos, deixei de o sentir passei uma noite com ele cá dentro sempre na esperança que era um pesadelo ... no dia seguinte o parto em que o meu pequeno Matheus nasceu de um parto normal, sem vida com apenas 150cm um palmo ... estava todo formado perfeitinho lindo em paz ... depois de me terem tirado tudo naquele momento veio o funeral um pequenino anjinho ali enterrado não me faz sentido nenhum mas não fizeram o que eu queria ... o pequenino Matheus foi muito desejado amado e sempre vai ser o nosso princepesinho o nosso guerreiro que lutou até ao fim ... por isso percebo a sua dor o seu luto entendo cada palavra e é triste que o que sentimos é interpretado por algo sem importância ...como se fosse algo banal ...

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    1. Oh Fábia... fiquei comovida com as suas palavras.
      Tem tudo menos banal o que lhe aconteceu e à sua família.
      Nem imagino o que seja passar por isso e envio-lhe um grande beijinho e muita muita força para ultrapassar.

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  3. Numa madrugada como outra qualquer, 19 semanas depois de falar maioritariamente sobre nomes, escolas, de logística, de marcas e modelos de carrinhos e cadeirinhas, das férias, da educação e a encher o armário da roupa... 19 semanas depois de ter começado a ser Pai, o sonho desapareceu com a perda de todo o líquido amniótico. Um pesadelo. Nada houve a fazer. Um parto sem anestesia. Um parto sem choro. Um parto sem bébe. Contracções a troco de nada. Um ambiente de maternidade onde as barrigas das grávidas parecem maiores e onde todos os pais de recém nascidos me pareceram ainda mais sortudos. Um ambiente em que todos pareciam ter aquilo que eu não ia ter. Fiquei sem nada. Depois daquilo pouco importa. Senti que se me passasse um carro por cima, era um favor que me faziam, sobretudo porque não tenho outros filhos em casa que me mantenham à tona. Resta a esperança no futuro e o respeito que a Natureza merece. Resta acreditar que esta não foi a única experiência de paternidade que tive. Resta acreditar que um dia a minha paternidade irá ser plena e que a tristeza profunda seja temporária. Por enquanto resta-me apenas o amanhã.

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    2. Não podia ter encontrado melhor palavras para descrever o que sinto. ��❤️

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  4. Depois de 13 semanas, sentir a barriga a crescer na mesma, a tomar os suplementos vitamínicos que devia e tudo certinho, fiz a eco das 12 semanas. E estava lá, muito quietinho, mas não se ouvia o som do coração. E a médica diz-me, "o seu feto parou de evoluir às 8 semanas". Caiu-me tudo. Aborto retido. Não quis acreditar. Como é que era possível, se a minha barriga crescia na mesma? 1 dia inteiro no hospital para sair tudo. E a médica dizia "tem de ser forte. Pense que nesta altura ainda não é nada. Não é um bebé". Não é um bebé, mas são sonhos, planos para uma vida mais feliz e mais completa. Custou-me muito. Fiz o meu luto.
    Passa, mas não se esquece. 1 ano e meio depois, a Natureza encarregou-se de me dar 2 lindas princesas gémeas, de forma natural, sem tratamentos, perfeitinhas, saudáveis e a maior alegria e o meu maior desafio.
    Passei a gravidez tão feliz, mas com tanto medo que voltasse a acontecer.
    E foi uma gravidez saudável, e com muitos pontapés. :) Hoje, têm 21 meses e não me esqueço do que me aconteceu.
    E todos os dias agradeço pelo que o destino me deu. Fui abençoada. :)
    Beijinho grande.
    Rita

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  5. Infelizmente conheço as típicas frases que revoltam tanto "não tem cá nada","isso nem gravidez era", "tens de ser forte"... Nos também não foi planeado, mas tal como a autora do blogue disse, descobri cedo, pelas contas do médico 6 semanas, pelas minhas 3. Numa 6 fui às urgências já a perder sangue e disseram-me que tinha ali um pontinho pequenino e que não estava a abortar para ficar descansada. No sábado às dores e sangue intensificaram e nesse dia perdi-o, senti..no dia seguinte urgências novamente "não tem cá nada, pode ir embora". Caiu-me o chão. Pode ter sido a primeira gravidez mas ainda eu nem sabia já andava com sintomas. Podem ter sido apenas 15 dias, mas foram os 145 dias mais felizes e amedrontados que tive. Infelizmente derivado a um aneurisma que foi descoberto 7 dias antes de saber da gravidez (ainda não sabíamos o que era, se aneurisma se tumor) não sei quando poderei ter um filho meu nos braços, os médicos dizem que não antes de 2 anos e meio depois do tratamento ficar concluído, pois como tudo na minha vida, este aneurisma é complicado e não dá para operar. Para "ajudar" 1 dia para fazer 1 mês de ter perdido o meu anjo cai a bomba que a minha cunhada está grávida. Doeu tanto. Hoje 6 meses e 2 dias depois já consegui desfrutar do meu sobrinho, mas continuo com pânico de entrar sozinha na secção de bebés. Desejo toda a sorte aos pais e mães que perderam quer tenham ou não outro filhote. Beijinhos Cláudia

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  6. Infelizmente conheço as típicas frases que revoltam tanto "não tem cá nada","isso nem gravidez era", "tens de ser forte"... Nos também não foi planeado, mas tal como a autora do blogue disse, descobri cedo, pelas contas do médico 6 semanas, pelas minhas 3. Numa 6 fui às urgências já a perder sangue e disseram-me que tinha ali um pontinho pequenino e que não estava a abortar para ficar descansada. No sábado às dores e sangue intensificaram e nesse dia perdi-o, senti..no dia seguinte urgências novamente "não tem cá nada, pode ir embora". Caiu-me o chão. Pode ter sido a primeira gravidez mas ainda eu nem sabia já andava com sintomas. Podem ter sido apenas 15 dias, mas foram os 145 dias mais felizes e amedrontados que tive. Infelizmente derivado a um aneurisma que foi descoberto 7 dias antes de saber da gravidez (ainda não sabíamos o que era, se aneurisma se tumor) não sei quando poderei ter um filho meu nos braços, os médicos dizem que não antes de 2 anos e meio depois do tratamento ficar concluído, pois como tudo na minha vida, este aneurisma é complicado e não dá para operar. Para "ajudar" 1 dia para fazer 1 mês de ter perdido o meu anjo cai a bomba que a minha cunhada está grávida. Doeu tanto. Hoje 6 meses e 2 dias depois já consegui desfrutar do meu sobrinho, mas continuo com pânico de entrar sozinha na secção de bebés. Desejo toda a sorte aos pais e mães que perderam quer tenham ou não outro filhote. Beijinhos Cláudia

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  7. Passei por isso, ainda penso nisso e muitas pessoas acham ridículo mas é verdade que é um luto mal compreendido e por vezes as recordações voltam, encontramos uma ecografia dessa altura perdida numa gaveta e choramos pelo bebê perdido. Hoje com 3 filhas por vezes penso nesse bebé e apesar de depois do que aconteceu ter engravidado de gêmeas nada apaga o que senti nessa altura e com o que aconteceu. Sinto-me muito grata pelas minhas filhas mas há uma parte de mim que ainda chora o bebé que so conheci dentro da minha barriga umas semanas.

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  8. Voltei 6 anos atrás... Já passou e nunca mais pensei nisso! Mas hoje deixaste-me de lagrima no olho... :)
    Fico feliz por saber que em vez dos dois que nunca vieram já tenho outros dois maravilhosos! Beijo grande <3

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  9. Há 2 meses atrás, numa 6ª feira disseram-me "estás com uma gravidez não evolutiva. passa cá na 2ª feira para tratarmos disso"... Caiu como uma bomba, foi planeado, com acompanhamento, com todos os exames pré-natais feitos...
    Também eu senti quando fiquei grávida, quando começaram as primeirissimas indisposições... e o meu maior sintoma (que é estranho para a maioria) que são caimbras na barriga... fiz o teste, confirmou-se a gravidez... fui ao centro de saude, novo teste, nova confirmação... a barriga já a começar a tomar forma... fui ao médico particular, que com a ecografia disse as palavras acima... ainda hoje quando penso nas palavras doem, se calhar não o que foi dito, porque era inevitavel, mas a forma como foi dito... perguntei o que acontecia e disse que ou ia lá tratar do assunto, ou saia por ele... disse-lhe que não ia lá... que ia ser, quando tivesse que ser, mas para não contar comigo...
    E assim foi... ainda não fui lá novamente, não sei se quero... Foi ele que acompanhou as gravidezes dos meus filhos (5 e 2 anos)...
    O luto está feito, mas continua a doer... era o nosso número 3, que eu achava que ia ser uma Isabel...
    Aos olhos deles ainda não era nada, para mim eram 10 semanas de bebé, para os meus filhos era o mano bebé que vinha... agora é a esperança que venha um dia...
    Obrigada pelo teu testemunho.

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  10. Carlinha

    Me casei nova, queria filhos logo, e não veio...fiz tratamentos durante anos e nada, decidi parar e quando menos esperava engravidei, tive uma gravidez tranquila, me sentia plena, minha filha hoje tem 7 anos. Com passar do tempo resolvi tentar engravidar e em 2015 engravidei, que felicidade, primeiro ultrassom as 7 semanas não tinha batimentos, fiquei triste, chorei e passei por uma curetagem já que era retido, passou os 3 meses, resolvi tentar de novo, engravidei em junho/2016, que alegria, primeiro ultrassom com batimentos,uma felicidade enorme, fiz todos acompanhamentos, consultas, vitaminas,quando vou fazer a translucência, meu mundo desabou estava com a TN aumentada e com mto liquido em seu pequeno corpo, arrasada mas fomos investigar o que estava acontecendo, fui ao um especialista em medicina fetal que investigou e me pediu um cariótipo, deixou claro que poderia ser uma síndrome, mas qual não sabíamos, fiz o exame, tive muitas esperanças que não fosse nenhuma síndrome, mas se fosse seria meu amada filha, até então uma menina!
    Quando chega o dia de buscar o resultado, levo a minha medica, e ela me disse que realmente era uma síndrome trissomia 18 , síndrome de EDWARDS, meu mundo desabou, chorei, perguntei a Deus por que??
    minha filha, que na verdade era um menino, estava com poucas chances de sobreviver já que é uma síndrome contraria a vida, quando minha medica vai me examinar, não ouve batimentos, meu bebê já estava morto dentro de mim.
    Passei por um parto normal e curetagem, a dor emocional, da alma, me acompanha nestes 15 dias após tudo ter acontecido.
    Agradeço a Deus por ter uma filha saudável e amada, ela quem me dá forças.
    Mas choro e sofro todos os dias, por ter perdido meu bebezinho.

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