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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Ser já o teu herói

Há um brilho nos olhos dos meus filhos que me diz que me amam. Que sentem orgulho.  Que esperam o melhor de mim. Mas sem grande cobrança. 
Há neles uma esperança que os faz acreditar numa espécie de mim herói.  Numa espécie de mim invencível,  numa espécie de mim,  perfeita.  Apesar de me reconhecerem as imperfeições.
Não há desilusão.
Eu e o pai somos uns heróis.
É por nós que esperam quando a escola acaba, somos nós que estamos para o banho, o jantar, o deitar.  Corremos, brincamos e somos  fortes porque os levantamos no ar e os carregamos nas cavalitas e os fazemos rir com piadas tontas e caretas.
Eles são o nosso público mais fácil. Basta-nos pouco para os fazermos felizes.  Às vezes basta estar lá. 
De manhã chamam por nós e não descansam enquanto não virem a nossa cara. À noite querem-nos se têm medo e somos nós quem os faz sentir seguros. Querem o nosso colo, a nossa mão,  o nosso abraço.  Pedem o nosso aplauso, o nosso orgulho, o nosso sorriso. A nossa companhia.
E temos pouco tempo para andar com esta capa, com este fato que só eles vêm.
Um dia vamos ser pessoas normais.
Que falham. Que erram. Que vacilam.
Vamos desiludir, desapontar. Mesmo que sejamos iguais ao que somos hoje. Os olhos deles mudam e o filtro vai-se.
Seremos humanos.
Nós vê-los-emos sempre heróis,  de armadura. De fato. Capa posta.
Enquanto eles crescem criamos os heróis que temos tempo para ser e damos tudo para que nos vejam assim o máximo de tempo possível, que acumulem orgulho e que lhes chegue para que em adultos nos vejam como homens normais que falham, que tentaram ser exemplo e que os amaram sempre.
Mesmo quando lhes falharam alguns poderes.

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