} Avançar para o conteúdo principal

Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Dia da mãe

O dia da mãe chega todos os anos para assinalar aquilo que uma vez que somos, seremos para sempre.
Surgem vídeos,  frases,  declarações de amor.
Compram-se flores e postais e na escola desenha-se a cara da mãe e por baixo escreve-se: a minha mãe é...
Ligo pouco - para não dizer que gosto pouco - aos dias marcados no calendário e que nos obrigam ao quer que seja.
Mas há uns que gosto de aproveitar para pensar. O dia do Pai. Dos Avós. Um que para mim passou a ter demasiada importância,  o Dia dos Cuidados Paliativos e outros que não nos obrigam necessariamente a fazer nada de especial, mas a parar.
No ritmo do nosso dia a dia é muito difícil dissociarmo-nos da nossa ocupação principal. E a minha é maioritariamente ser mãe. Se bem que não existem, a meu ver mães a tempo inteiro ou a meio tempo. Mãe é mãe. 
Mas a maior parte do meu tempo é passado a ser mãe,  mesmo que não esteja com eles. As minhas tarefas estão quase sempre relacionadas com os meus filhos, a minha casa e claro, o meu marido.
A verdade é que o tempo é praticamente todo deles.
E por isso, paro pouco para pensar. Vou estando, umas vezes melhor outras pior, com eles, por eles, sem pensar bem na minha responsabilidade como mãe, sem pensar bem no tipo de mãe que quero ser, posso ser, tento ser. Vou sendo. Sempre guiada apenas e só por aquilo que sou, e não sou, obviamente perfeita. 
Ao final do dia, depois de os deitar, acontece-me pensar no que fiz de errado ou numa estratégia diferente para o dia a seguir caso alguma coisa tenha corrido menos bem. Mas paro pouco para pensar. 
Nem sei se o devo fazer tal é a responsabilidade que tenho/temos nas mãos. O melhor é ir andando e logo se vê. Fazendo o melhor, esperando o melhor. 
Mas estes dias, servem-me bem o propósito. Não nasci mãe, tornei-me mãe quando eles nasceram. Poderia não estar preparada para este papel e não só não estava, como grávida do terceiro filho ainda não estou. Sei, que enquanto eles são pequenos a dificuldade é mais física que outra coisa e que à medida que eles vão crescendo também crescem as preocupações. Faz parte. 
Vamos todas andando um bocadinho à deriva, com poucas certezas absolutas, algumas teorias, muitos instintos e partilhamos, eu sei, os mesmos desejos. Que sejam saudáveis, honestos e felizes. 
Neste dia da mãe quero parar para pensar. Não analisar mas talvez agradecer. É que esta é uma sorte que nos cai ao colo e que nos muda para sempre. Dou graças a Deus por isso. 
Feliz dia da mãe. 
Quando ele chegar. 

Comentários