5/17/2016

O teu mal é seres bom.

Sei que tenho filhos de coração bom.  Às vezes mau feitio,  irritadiços,  umas vezes mimados. Têm defeitos. Porque são pessoas, coisas a melhorar e para mim claro, perfeitos com essas imperfeições. O meu papel é atenuar o que possa ser menos bom,  orientar para o melhor caminho, fazer deles bons adultos.
Mas a sua essência é boa.
E não há mal nenhum em ser bom.
A minha filha é genuinamente boa. Não digo isto para provar nada de especial mas para enquadrar as minhas preocupações.
É que nem sempre é bom ser-se bom. Trazem-se para casa mordidelas, injustiças,  nomes feios e coisas que as crianças todas fazem umas às outras. E os meus com certeza também farão.
Mas a bondade preocupa-me tanto como a maldade.
Preocupa-me que não se imponham, que não estabeleçam limites, que não se defendam.
Bate-lhe também, morde também, chama-lhe o mesmo, empurra-o....
Podemos apenas controlar os nossos. Contar com o seu discernimento,  com a sua capacidade de reacção. Às vezes com a escola em situações mais extremas e esperar que as situações normais não cheguem a fazer mossa, que sejam parte do crescimento e desenvolvimento.
Mas como se diz a um filho que seja uma coisa que não é?
Cresci a ouvir dizer que o meu maior defeito era ser boa demais e que essa era também a minha maior qualidade.
Nunca entendi, e achava muito injusto, até agora.
Não lhe chamo um defeito até porque é das poucas coisas que espero deles. Mas pode ser um impedimento a que cresçam seguros, fortes, decididos. E isso sim. Assusta-me.
Como é que se ensina um filho a defender-se sem o transformar numa pessoa que não é? Como é que se dá segurança sem altivez?
Como é que que se encaixa a bondade no confronto às vezes necessário durante o crescimento?
Como é que se mantém um filho bom? E seguro?  E confiante?
Vamos dando aos nossos filhos empurrões constantes para que aprendam a defender-se. Usamos os irmãos e eles usam-se dos irmãos para treinarem essas capacidade mas a verdade é que os queremos assim, que as qualidades com que nasceram não se transformem por causa dos outros. 
Talvez isso tenha mesmo que acontecer se quisermos que cresçam....

3 comments:

  1. Sinto este texto como se fosse meu. Já dei por mim a dizer "dá-lhe tau tau quando te fizer isso". Mas como não eduquei a minha pequenina desta forma e ela é "boa", como dizes, ela respondeu-me "não mamã, isso não se faz, não se bate". Fiquei feliz com a resposta e de lágrima no olho apesar de saber que o que lhe ensinei talvez não seja o melhor para sobreviver nesta "selva". Um beijinho

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    1. Que querida a sua filha.
      É mesmo isso. Queremos que continuem bons mas que não se deixem abater... Enfim, é difícil dar-lhes armas para tudo....

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  2. Pois... Ao ler este texto, lembro-me de uma conversa com uma colega de trabalho sobre o mesmo assunto... "Não sei o que ensine à minha filha, se a ensino só a ser boazinha não se vai safar, porque na realidade em que vivemos, só quem é xico esperto é que se safa"... Fiquei a pensar nisso nessa altura, e agora com o teu texto, vejo as minhas dúvidas expostas... O que ensino aos meus filhos? a ser o que não são? a safarem-se?

    Um dia de cada vez, a tentar perceber o que se passa e como melhor os orientar...
    Beijinho

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