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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

O choro dos bebés

Os bebés choram.
É um facto irrefutável.
Quando vêm parar às nossas mãos,  principalmente na primeira vez,  o choro pode ser muito assustador.
Com a minha primeira filha, o choro significava uma quebra no sono - sempre atribulado dela - e por isso era como uma facada sempre que o ouvíamos. Íamos a medo, pé ante pé, a esperar que por milagre parasse.
Tínhamos medo daquele choro. Não o reconhecemos durante algum tempo. "É sono? É fome? É sede? Calor?" Estávamos completamente às escuras.
E ela não chorava muito.
Aquele choro fez-nos duvidar muitas vezes. Vezes demais, sei hoje.
O choro não é a primeira mensagem que o bebé nos envia. Às vezes é a última, em desespero já, e por isso é absolutamente natural que não sejamos capazes de interpretar logo, os sinais.
Andamos às apalpadelas. Não reparamos que quando tem sono coça as orelhas, põe a mão no cabelo e quando tem gases mexe muito as pernas e quando tem um arroto tem um tique com a língua.
O que me fui apercebendo com 3 filhos que choram (graças a Deus) é que o seu choro - o de recém nascido - tem sempre mas sempre uma razão de ser.
Vejo isso agora mais claramente que nunca.
A Luísa é a minha grande confirmação.
Ela chora. Tem arroto. Tem gases. Tem fome. Tem sono. Tem uma roupa que a arranha nas costas. Tem vontade de colo. Tem vontade de mãe.
E à medida que nos vamos conhecendo, eu vou interpretando melhor e distinguido os seus diferentes choros.
Há um que ouço desde o primeiro dia. O som da fome. É sempre igual e é bom, na maioria das vezes reconhecê-lo. Resolvo-o depressa. Num instante.
Há outros que vai por tentativa e erro e é sempre assim este processo de conhecimento.
Deixar chorar é uma jogada contra mim mesma. Se deixo o meu bebé chorar abro caminho para deixar passar os sinais, para perder momentos para o conhecer, o compreender. Se deixo o meu bebé chorar ignoro quando me fala. Mesmo quando chora por mimo, por colo, por saudades,  vontade de me ver, por estar farta de estar no ovo. Por ser bebé.

Quando a Luísa chora com fome repete o som ánéééé ánéééé. :) 

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