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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente parte daq…

Dar conta do recado

Às vezes não dou conta do recado.
Não tenho a roupa passada nem as meias dobradas.
Não tenho o cabelo arranjado.
Não tenho as refeições todas alinhadas para a semana. Não tenho os miúdos todos felizes ao mesmo tempo. Não tenho a casa arrumada. Não tenho energia. Às vezes não dou conta do recado e caio na verdade das coisas. Não tenho tempo para o desporto nem a cabeça para a dieta nem para a amamentação nem para fazer kits de manhã que me favoreçam. Às vezes, de tudo o que é preciso para a casa andar a todo o gás e todos estarem a 100% só há metade das coisas.
Metade da energia,  metade da organização,  metade da boa disposição. Não saio de casa a horas, não vou ao supermercado como deve ser, não comem biológico como é suposto e não faço sopa para a semana porque às vezes não dou conta do recado.
Algumas vezes está tudo quanto baste e por isso não se nota (tanto) o resto que ficou para trás. Se a casa está arrumada então parece mais fácil planear a semana. Se a roupa está passada então as manhãs são canja. Se a despensa está cheia as ementas da semana pensam-se com mais clareza. Se os filhos estão com saúde se o carro tem gasolina se ninguém se esqueceu de comprar fraldas ou toalhitas se consegui não comer pão nem porcarias a semana toda se o pai chega cedo se não chove se o bebé dormiu toda a noite, se todos estão com bom feitio, se está tudo bem na escola no trabalho na família nos amigos.....
É muito raro dar conta do recado mas as coisas disfarçam-se. Algumas disfarçam-se. Outras atropelam-se e de repente é óbvio que está o caldo entornado e o mundo do avesso.
É preciso um reset. Uma coisa de cada vez. Qualquer coisa tem que ficar para trás. Ou eu ou a casa ou a roupa ou a alimentação ou o sono ou a dieta ou o corpo ou um monte de coisas ao mesmo tempo.
Depois respira-se fundo, telefona-se a uma amiga,  um abraço do marido, e recomeça-se. Até ao recado estar dado.

Comentários

  1. "Dar conta do recado"... não sei o que é isso desde que, a contar com mais um (em já duas), vieram duas e com isso, que não mudaria por nada, o reaco ficou no caminho e vamos-nos orientando da forma que dá...

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  2. "Dar conta do recado"... não sei o que é isso desde que, a contar com mais um (em já duas), vieram duas e com isso, que não mudaria por nada, o reaco ficou no caminho e vamos-nos orientando da forma que dá...

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