Time out

É difícil falar sobre isto sem parecer que me estou a queixar e porque na verdade até estou mas a realidade é que é proibido a uma mãe cuja única ocupação sejam os seus filhos queixar-se porque é um privilégio que muitas mulheres e também homens desejam para a sua vida.
Acontece que às vezes nos queixamos do nosso trabalho mesmo que seja tudo aquilo com que sempre sonhámos. Dias mais difíceis, o resto do mundo, problemas familiares, ordenado fraquinho, poucas férias, um mau patrão... Nada é perfeito. E as pessoas queixam-se. Faz parte.
Em 2011, grávida da Leonor a agência onde trabalhava, fechou, e fiquei com uma barriga, um papel de desemprego na mão e portas fechadas devido à minha condição.
Este é o resumo. Desde 2011 que estou em casa e desde 2011 que não tenho férias no verdadeiro sentido da palavra e conto pelos dedos os dias em que estive sem filhos. Talvez no máximo um fim de semana. O dinheiro vai sendo preciso para outras coisas, as férias obrigatoriamente têm que ser pensadas em família e o orçamento vai-se gerindo para que todos fiquem a ganhar.
No dia a dia não me queixo muito desta opção de vida que tomámos mas queixo-me do dia a dia e de como é cansativa a repetição das coisas.
Quem passa por isso, sabe.
Cá em casa há dois pais muito presentes, um que trabalha muito fora de casa, outro, dentro de casa.
Há eterna luta de sabermos que é um privilégio estar com eles sempre que seja necessário e é com certeza muito melhor do que ter que trabalhar ao fim de semana e 18 horas por dia mas também há a necessidade de descanso. Quando todos estão na escola - vão depois do primeiro ano e a Luísa estamos a considerar ficar dois - tenho o tempo para mim (mesmo que esse tempo seja em casa onde há sempre muitas coisas para fazer) mas esse tempo claramente não chega.
Já não sei estar sem filhos. Sinto isso em coisas simples como ir ao supermercado ou beber um café ou cortar o cabelo ou quando janto fora com o meu marido ou amigos.
Estar sem eles passou a ser estranho e acredito que isso não seja absolutamente saudável embora maravilhoso.
Contra mim falo que corro para junto deles quando tenho que os deixar, que torço o nariz à possibilidade de viajar sem eles - mas queria tanto -, que acordo sem eles em casa e nem sei bem o que fazer.
Este emprego que tenho de bom grado e agradeço todos os dias por ele, ocupa 90% do espaço da minha vida, da minha cabeça, das minhas opções, das minhas tarefas e é muito cansativo.
Tem sido um crescendo o tempo que dedico aos meus filhos uma vez que em 5 anos passei de zero para três. E é uma absoluta loucura.
Parar é quando eles se deitam e com um bebé não existe bem parar, há sempre uma expectativa e uma realidade que muitas vezes se cruzam: os bebés acordam durante a noite, ou a maioria. É um facto. Nem todos os dias precisam de tomar banho, mas convém. De comer precisam, coitados e de uma história e miminhos e que olhe nos seus olhos com tempo.
Nas alturas mais atribuladas perco muitas vezes o controlo. O controlo de tudo e não só das refeições mais completas ou dos pijamas arranjadinhos e a combinar. Perco o controlo da casa, perco forças, perco anos de vida, perco-me pela casa em roda viva entre um e outro e outro como se eles fossem mil porque nestes dias de cansaço parece que nos exigem mais.
Perco o controlo das roupas no estendal e para passar, das "regras" deles, dos timings e às vezes perco a paciência. Esqueço-me de tudo o que é para mim educar, respeitar e gerir a minha capacidade de aguentar tudo, de forma adulta. Grito, eles choram, vão de castigo. E fico a sentir-me a pior do mundo apesar de ter a certeza absoluta que faço sempre o melhor que posso errando mil vezes sem conta.
Eles são o mais importante da minha vida, das nossas vidas, são o meu emprego, é neles que deposito tudo o que sou, mesmo quando sou só uma pessoa mais ou menos.
Prefiro muito mais a vida que tenho hoje do que a vida que tinha há 6 anos atrás quando tinha um trabalho com um ordenado, um horário para entrar, almoçar, para sair e para dormir e para usar como bem me dava na gana.
Não me queixo dos meus filhos, são incríveis a tantos níveis, fáceis, felizes e por isso é difícil queixar-me do trabalho que me dão, porque esse trabalho é também amor, e é desse amor que eu vivo.

(...)

Lá fora há um qualquer coisa que pode ser tudo
há um nada infinito
há mais, que sabe a pouco
e há o pouco que se agiganta
num instante
e sem horas.
lá fora há mais que tudo
há espaço
há tempo
há gente, tanta gente
lá fora há outra vez um nada
repleto de ninguém,
cheio de si
tanta gente outra vez
à volta
em frente
aqui e só aqui.
lá fora
em todos
e nas ruas
há tanta coisa
lá fora
e mais, cada vez mais
há tanta coisa
dentro de mim.


Maria Ana Ferro

Comments

  1. Sinto uma admiração imensa pelas mulheres que ficam em casa com os filhos. Não há trabalho mais duro e mal reconhecido (acho eu).
    Se tivesse que o fazer, com certeza que faria mas, para mim, não seria uma escolha. Estive 6 meses com a minha bebé e quando fui trabalhar senti que ia de férias para um resort. Claro que ajuda ter redução de horário e, quando volto para casa, já estou cheia de saudades mas nos dias em que fiquei sozinha com as duas miúdas (uma de 6 meses outra de 2 anos), e quando ficaram doentes, ia ficando maluca.

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    1. Ah ah! Um beijinho e obrigada. Acho que somos capazes de tudo!

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  2. :)
    Esse é o trabalho que queria para mim...
    O espaçamento de idades não é muito diferente...
    Um dia de cada vez... O mais novo nasce em Março...
    Beijinhos e força, farol e leme para os momentos em que as coisas ficam confusas e se perde o norte...

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    1. Não foi o trabalho que escolhi mas é o melhor do mundo e não o trocava por nada. :) Um beijinho.

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  3. Tudo dito! Desde que fui mãe há oito meses (e com tudo aquilo que tenho para fazer a nível profissional) que penso tanto como seria bom poder dedicar-me à maternidade a tempo inteiro. Mas, infelizmente, não é um opção que possa tomar nesta fase. Todos os dias, ao final do dia quando tenho o meu bebé de novo nos meus braços, penso no tempo que tenho de dedicar ao trabalho e aos estudos e que não posso dedicar a ele... Por isso, optei por, sempre que ele está junto de mim, me desligar de telemóveis, computadores e afins para que o tempo possa ser todo dedicado a ele. Pelo menos por enquanto, será assim. Gostava de, no futuro, poder mesmo ser mãe a tempo inteiro e pensar em mais filhotes. Obrigada por este exemplo e por estas palavras sempre carregadas de energia positiva!

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    1. Obrigada eu.
      Também estamos a tentar reduzir o uso dos telefones quando estamos todos juntos.
      Um beijinho.

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  4. Que profundo. Eu penso muitas vezes como seria estar em casa sempre e em todos os minutos com o meu bebé. Parabéns pela força e pelo exemplo. É de facto um trabalho que só pode ser feito com e por amor. Viva ao amor :)

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  5. Partilhei este seu lindo texto no meu blog, porque acho que vale tanto à pena ler pessoas como a Ana! Também tenho 3 filhos e sei que faz tanta falta ter tempo para "os olhar nos olhos" mais vezes..

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