3/16/2017

Vou ser pai


Na realidade, tudo começa com um “vais ser pai”.
Ao contrario das mães, nós pais não sabemos. Dizem-nos.
Recebi a notícia, da Leonor, do Zé Maria e da Luísa com surpresa, apreensão, alívio e orgulho. Todos com imensa alegria.

Em todas as vezes que a MariAna me disse que estava grávida soube que ia ser pai, já era pai. Mas a realidade só se instala uns tempos depois.

Senti-me sempre atrasado umas semanas (às vezes meses) em relação à MariAna, talvez por não ter a barriga a relembrar-me, a mentalizar-me, a transformar-me.  Esse atraso trazia uma culpa mal disfarçada, como se durante a gravidez fosse um pai de segunda e a MariAna uma mãe de primeira.

Felizmente tive uns empurrões que me faziam recuperar o atraso. Ouvir o coração pela primeira vez, em alta voz, é o melhor reality check de todos. Sinto sempre que eles me estavam a dizer quase só para mim: “estou vivo”.
Ainda assim, descontando os empurrões, o meu papel na gravidez não é ser pai, é ser marido. Minimizar os efeitos secundários, como ouvinte, farmacêutico, massagista, amante e amador.

Seria de esperar que o nascimento fosse o derradeiro empurrão. Mas não é. Ou para mim não foi.
Foi magnífico, não há outra sensação que supere a primeira vez que temos os nossos filhos no colo, com juras de amor desnecessárias e promessas de superação quase utópicas. Mas também aqui fui uma personagem secundária. O mérito foi todo da MariAna, eu “só” estava a segurar-lhe a mão, absolutamente comovido pela sua força e determinação - aconteça o que acontecer sei que nunca me vou esquecer dos olhos dela marejados de amor.

9 meses depois era pai mas ainda não me sentia verdadeiramente pai.
Então para quando a epifania? Queria deixar de me sentir culpado por não sentir aquela simbiose perfeita entre mãe e recém-nascido, em que se reconhecem mutuamente os cheiros, os sons e os humores. Sentia-me quase a mais. Não podia dar de mamar, não reconhecia os esgares nem sabia os truques para os adormecer. Mais uma vez tive que ser mais marido, mas em modo pit stop da fórmula 1. Mudava a fralda para a devolver, dava banho para a devolver, vestia-a (invariavelmente mal) e devolvia-a, vigiava-a enquanto as duas dormiam. Pouco mais.

Depois veio o primeiro reconhecimento, a primeira vez que acalmou com a minha voz, a primeira vez que adormeceu ao meu colo. O primeiro sorriso.

E com isso veio o orgulho de estar a fazer qualquer coisa bem.
Sem saber ler nem escrever os meus filhos fizeram de mim pai. Deixei de ser um suplente utilizado. Passou a ser com a minha música que adormeciam, que dobravam o riso, que comiam a sopa toda. Depois de tantas noites mal dormidas e turnos duplos (no trabalho e em casa) fui promovido a pai a tempo inteiro.

É justo que assim seja. As mães suportam enjoos, insónias, barriga, maminhas e pés inchados, parto, amamentações e alterações hormonais. Antes de nascerem já lhes devem tudo. Nós temos que fazer por merecer a paternidade.
Ser pai não foi uma epifania, não foi um momento definido no tempo e espaço, mas sem saber como, de repente o amor foi tão absurdo que me ultrapassou.

Começou atrasado, admito, mas rapidamente me ultrapassou.

E pretendo passar o resto da vida a tentar apanhá-lo, a tentar ser o pai refletido no amor que sinto pelos meus filhos.







No comments:

Post a Comment