6/28/2017

A educação do sentir

Fui uma criança feliz.
Com uma educação muito diferente da dos dias de hoje. Não havia muita abertura - ou nenhuma - para falar sobre sentimentos.
O que é que sentes?
Não havia por hábito perguntar o que se passava por dentro.
Estás triste?
Não se falava das emoções ou do amor e não se exprimia o que se sentia.
Adoro-te.
A vida andava como andava a vida. Sem floreados nem "coisinhas sem importância ". Havia de facto poucas coisas importantes.
Haja saúde!
O coração e a emoção tinham um lugar muito pequenino e era assim que era e pronto. Nem bem nem mal.
Talvez por isso essas coisas da alma ocupem hoje o maior espaço na minha vida. Talvez por isso me queixe sem reservas e me preocupe com coisas de nada e pense sobre coisas que não merecem tempo. Se elas passarem por mim, passaram. E isso é bom.
Sou uma mulher feliz.
Falo sobre o que me magoa. O que me preocupa. O que me angustia. Digo aos meus que os amo. Uso a palavra amor. Digo-lhes que os adoro, que estou triste com eles ou comigo, peço desculpa.
Não estou sempre de sorriso na cara nem sempre com o (obrigatório) pensamento positivo, não estou sempre optimista nem como se nada fosse. Não estou sempre despreocupada de nenúfar em nenúfar a saltitar pela vida como se algumas coisas não fossem difíceis ou que simplesmente merecessem a pena ser reflectidas ou vividas.
O mundo não cai se pensar nele. Não sou menos feliz se chorar de vez em quando e se me deixar levar por um problema. Talvez seja assim que melhor o resolvo.
Não há mal nenhum em parar. 
Ser feliz não significa não pensar, empurrar com a barriga, pôr para trás das costas, fingir que não aconteceu, fechar os olhos. Ser feliz não significa andar sempre de sorriso posto. De gargalhada pronta. Conseguir fazer tudo ao mesmo tempo e mil coisas por dia, estar em todas as frentes também não faz de mim corajosa ou espectacular mas se calhar cansada ou a perder outras coisas mais importantes. 
Confrontar a alma não faz da vida um drama ou uma tortura ou mesmo um desperdício mas uma possibilidade constante de ser um bocadinho mais, mesmo que às vezes doa. 

Isto tudo a propósito do espectáculo que vi de uma querida prima, talentosa e que tem coragem de ser livre. Aconselho toda a gente a ir ver, a rir muito mas mesmo muito e a levar para casa coisas para pensar. 

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