9/20/2017

Fora os TPC

Fora os TPC. Os de 5 minutos 10 minutos os de meia hora. Os que são só uma vez e mais os que são duas e mais ainda os que são 4 ou 5. Fora os TPC sob a forma de desenhos ou ditados ou problemas ou colagens ou recolhas de coisas na rua ou seja lá aquilo que for.
Fora o tempo de trabalho em casa porque a casa não é o trabalho. É onde se desliga. Onde se para. Onde se descansa.
Onde se faz aquilo que se quer fazer e onde se goza o nada.
Onde se aproveita os irmãos mais velhos e mais novos para brincar falar bulhar.
Fora a obrigação de ter que pensar no que se pensou ao longo do dia. As coisas que se gosta e as que se odeia. Fora o prolongamento da escola para casa porque a casa não é a escola e a escola também não é a casa.
Fora afastar uns irmãos dos outros e deixar uns brincar e estender-se no sofá e outros fechados longe a cumprir obrigações ou a esforçar ainda mais a cabeça para se concentrarem no meio de um caos normal que não é suposto contrariar.
Fora a lógica obsoleta de que a vida é assim que ajuda a criar um (mau) hábito e que é uma preparação para o que há de vir porque o que há de vir são adultos que se questionam o tempo todo e à falta de tempo que têm para gozar os seus e às vezes que atendem telefonemas de trabalho a horas pornográficas e que trabalham ao fim de semana e que não sabem dizer que não e que não podem dizer que não porque a vida é assim. E porque assim é que tem que ser.
A pescadinha de rabo na boca começa aqui. Aos 6 anos. No primeiro ano. E nunca mais tem um fim.
Fora as teorias desencontradas sem nexo e sem sentido do adulto que contesta horas extraordinárias mas as exige a uma criança.
Se estamos hoje a viver o que estamos a viver como adultos. Se o maior flagelo da nossa geração, mais do que o dinheiro é o tempo. Se choramos com saudades do marido dos filhos das horas vagas das férias grandes dos tempos mortos dos feriados livres dos fins de semana como temos a coragem a audácia e a lata de encaminhar os nossos filhos exactamente pelo mesmo caminho?
Parece pequeno. Mas começa aqui.

6 comments:

  1. Nunca tinha pensado muito a sério na questão dos tpc mas é exactamente isso. Obrigada pela clareza destes argumentos ��

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  2. Retrataste super bem o flagelo da nossa sociedade! Estamos constantemente a sabotar a nossa felicidade e a dos outros, num ciclo aparentemente sem fim. Mas há esperança, ja existem escolas com pedagogias mais adaptadas a uma sociedade evoluída (na Finlandia nao ha tpc's, onde o ensino é considerado numero 1 no mundo!)

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  3. Adorei o texto, tal como comentei no instagram , à medida que os anos vão passando vai piorando, por isso a minha foi para um Centro de Estudos, e mesmo assim saía de lá às 20h pois é uma criança com deficit cognitivo logo tinha e tem mais dificuldade em executar as tarefas, dedicavam-se bastante à miúda, mas tinha que ser tudo com calma, saía da escola às 17h30 chegava ao centro de estudos às 18h40 pois era pertíssimo da escola, também tive que pensar nesse pormenor, estava lá 2 horas, sempre a dar no duro. Quando chegavamos a casa era: jantar, tomar banho e 9h30 cama, agora com 15 anos já se deita mais tarde, mas sem ultrapassar as 10h30, quando podíamos conversar? Quando íamos a pé para casa que demorava uns 30 minutos ela punha a cusquice em dia, o facto de irmos a pé para casa era muito benéfico nesse sentido.

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