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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

O meu filho Salvador.

Um dia conheci uma rapariga no jardim. Era meio espalhafatosa e daquelas que mete conversa e tem logo muito assunto. Como devia haver mais, talvez.
Quando demos por nós já tínhamos aberto meio livro da nossa vida e eu já lhe tinha contado - grávida do Zé Maria - que não dormia há mais de dois anos.
Ela ouviu-me sempre sorrindo e disse: como é que uma pessoa que não dorme consegue ser tão simpática?
Nunca mais me esqueci dela. Tanto foi que nos tornamos amigas.
O tempo passou e a Leonor dormia cada vez pior. As técnicas foram mil. E nenhuma funcionava.
Com 39 semanas de gravidez e em desespero entrei na cama de grades dela - já não era a primeira vez- para conseguir dormir um bocadinho.
O Zé Maria nasceu às 40 semanas. Exactas. Um parto induzido e por isso com data marcada.
Dia 7 de Março de 2014.
No dia 6, quando fui ter com a minha médica, disse-me que ele ia nascer depressa, que já estava mesmo ali, para ir para casa, deitar-me para que não nascesse durante a noite e que com certeza entraria no hospital no dia a seguir já em trabalho de parto.
Fui para casa e só pensava numa coisa. E a Leonor?
E ela que não dorme? Como é que a vou deixar 3 dias?
Ela era uma preocupação maior do que tudo o resto.
Nessa noite, conta a minha sogra, dormiu a noite toda.
Foto: Crush
Ele nasceu. Depressa e bem. Perfeito. O meu parto mais tranquilo, soltou um choro de quem quer só dizer que chegou e nessa tarde dormiu logo 4 horas. Ele nasceu e eu dormi 4 horas. Por isso é que o trato (cá dentro) por Salvador.
Foto: Crush


No dia em que ele nasceu e a Leonor o conheceu, entrou na sala do hospital histérica. Tinha 2 anos e 7 meses. Os olhos estavam em todo o lado e em lado nenhum. Demos-lhe o presente que o mano trouxe e ela estava incapaz de estar quieta, concentrada. Todos me diziam que estava feliz - como é que eu não via?? - mas eu sei, ainda hoje, que ela estava completamente perdida. Quando percebeu que não ia com o pai para casa, como era o plano chorou e decidimos que ele ia com ela para casa.
O meu marido que assistiu ao parto e esteve comigo o tempo todo, saiu do hospital para levar a Leonor e passar a noite com ela, porque eu lhe pedi. Era mais importante para mim/nós ela estar bem do que qualquer outra coisa.
Hoje tenho pena que isso tenha acontecido.
Sei que tomámos a decisão certa na altura mas preferia que ele pudesse ter ficado mais tempo com o nosso filho acabado de nascer. Que tivesse gozado comigo aquela calma, aquela paz. O Zé Maria foi o meu parto mais tranquilo, mais fácil. Lembro-me que no caminho para o recobro com ele na cama, ao meu lado, de sentir um orgulho que não dá para explicar. E de o ter namorado como não consegui namorar a Leonor.
Ele foi crescendo, sempre um bebé fácil e a Leonor cada vez pior nos sonos. Foram meses muito difíceis em que tínhamos um recém nascido com os sonos regularizados ou normais para um recém nascido e uma filha com quase 3 que não dormia. Um dia decidimos - porque o Zé Maria era enorme e não estava a caber mais no berço que ele ia para a cama de grades no quarto da Leonor. Chorei imenso. Para mim era cedo e custou-me aceitar que já o estava a tirar dali e também que tinha que me levantar para lhe dar de mamar e perder aquela rotina sonâmbula que adoro. Tinha 5 meses.
Não sei se foi nesse dia, se dias depois, se um ou dois meses depois. A verdade é que a Leonor passou a dormir a noite toda, sem acordar uma única vez.
Ele mudou tudo. Mudou o sono dela, mudou o nosso, mudou a nossa casa. Hoje, a Leonor com 6 continua com um sono muito mais agitado do que ele, com sonhos, idas à casa de banho e para a nossa cama mas na maioria das vezes deita-se e 1 minuto depois está a dormir até ao dia seguinte. O Zé Maria continua como nasceu: pacífico. Tranquilo e dorme que nem um anjinho, o meu filho Salvador.
Foto: Crush




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