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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

Engoli um sapo

O primeiro dia em que engolimos o primeiro sapo é uma lição de vida. Aqui começa o role de momentos em que enfiamos o saco na cabeça ou a cabeça na areia. É um dia marcado por alguma vergonha em que se disfarça como se pode ou melhor ainda, se mente. Com todos os nossos dentes. 
"Ah sim! Eu sempre disse que a partir do momento em que o bebé nascesse já não teria muito tempo para mim".
Mentira! Eu achei que ia ser exactamente igual e que os bebés só dormem e comem.
Depois há os sapos sociais. Aqueles que dizemos às outras mães antes de sermos mães completamente às escuras.
Mas ele dorme ao teu colo? Coitada!
Sabemos lá o milagre que é dormir com um bebé ao colo.
"Ele pode mexer em tudo? Não te chateia?"
Não. Prefiro que ele me desarrume a vida inteirinha à minha volta se isso significar 5 minutos de pseudo paz.
"Tens ido ao ginásio? Quando for mãe estou lá batida no primeiro mês 《que é para isto ir logo tudo ao sítio》."
Bom para ti. A mim custa-me passar da cama para o sofá e só o faço com um sorriso na cara se estiverem lá plantadas Oreos.
Depois há um sapo que me custa particularmente engolir. O sapo: quando fores mãe vais ver. Quando nascer o segundo vais ver.  Quando forem três vais ver. É um sapo injusto porque na realidade há alturas na vida em que só podemos mesmo imaginar e pormo-nos na pele do outro.
Mas o mais difícil de todos é o sapo interior.
Aquele que não partilhamos, não dizemos a ninguém mas que estabelecemos em nós por facilidade,  por segurança. Por medo. E muitas mas muitas vezes, por ignorância.
Eu tenho vários desses. Que vou engolindo em esforço ou caem-me como bombas e são verdadeiras e incríveis lições de vida.
O maior é de longe a amamentação. O meu percurso a dar de mamar começou completamente às escuras com a minha primeira filha. Cheia de dúvidas e cheia de ouvidos o que claramente prejudicou. O segundo melhorou esta relação não necessariamente porque foi mais tempo mas porque foi muito mais consciente. À terceira tudo fez sentido e só à terceira entendi o verdadeiro sentido das coisas.  (Que injusto para os outros penso às vezes)
"Eu nunca hei de dar de mamar mais do que um ano e chegar ao primeiro ano já é uma loucura. Começa a andar e deixa de fazer sentido".
A amamentação é o maior sapo que já engoli. Porque gozei. Desdenhei. Não compreendi. Achei estranho e esquisito.
E sei que, porque já fui a pessoa que apontou o dedo, que só se compreende vivendo e por isso vivo bem se me apontarem o dedo quando digo que ainda dou de mamar (muito pouco mas dou) à minha filha de 1 ano e 8 meses (como é possível??) e que ela dorme a noite toda, não me despe em público e não me morde como um dia achei que todos os bebés faziam às suas mães.
Este é o sapo que engoli com mais orgulho e que tenho a sorte de ter vivido.
A maternidade é uma oportunidade para viver por inteiro e se hoje der algum conselho é só este: o nosso instinto maternal está lá. Desde o primeiro momento do nosso primeiro filho. Segui-lo torna tudo mais simples, mais natural e com muito mais sentido. Basta não ter medo. Fechar os olhos e ir.

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