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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

E quando eles crescerem?

Um dia eles vão ser grandes e não vão precisar de mim. Se tudo correr bem. Vão tirar o seu curso e/ou arranjar o seu emprego, vão viver para fora ou com amigos ou sozinhos. Vão casar. Um dia a casa vai estar sem eles e por mais duro que seja imaginar, vai ser - naturalmente - uma casa vazia. Isso não me preocupa nada. Sair de casa é agridoce para todos. Mas também é para isso que os pais se preparam: para a naturalidade da vida.
E eu?
Que pessoa vou ser daqui a 15 anos quando eles não precisarem que os vá buscar à escola, os leve ao médico ou ao ballet e ao futebol?
Quando o fim de semana for sinónimo de filhos na rua?
Não vejo os meus filhos como um investimento. São tão meus filhos como do pai e estamos os dois a fazer o melhor que podemos e sabemos por eles. Cada um com o seu tempo, a sua disponibilidade mas somos os dois 100% pais deles. Não é um investimento estar em casa. É uma espécie de esperança que disto saia uma coisa boa. Mas pode ser tudo ao lado... sei lá eu... sabemos lá nós.
E se eu não tiver um rasgo de luz , uma ideia inovadora, um talento escondido que me dê dinheiro, ocupação e auto estima? E se não me reinventar?
A certa altura o que fazem as mães e os pais quando os filhos vão à sua vida e não há um emprego que os distraia, que os sustente?
Sim, claro. Para trazer dinheiro para casa faz-se qualquer coisa mas o que saberei fazer nessa altura? E que me faça feliz? Quem me dá emprego? Quando é que decido que já chega? Que a partir de agora eles podem ser como a maioria das crianças deste país que tem os dois pais a trabalhar, muitas vezes até tarde?
Estar em casa há quase 7 anos - bolas tanto tempo - ensinou-me mais do que qualquer livro. Sobre eles e sobre mim e nem um dia foi tempo perdido. Todos os dias ganhei. Aprendi. Cresci. Todos os dias testei as minhas capacidades,  as minhas forças e os meus limites. Embora muitas vezes parecesse frágil por fora nada me tornou mais forte do que eles. Nada o faz.
Mas o que se ganha destes anos só o futuro dirá. O que eu ganhei sei bem. Está no meu coração. 
Mas dá um medo, não é medo do silêncio nem da paz nem do tempo para viajar e descansar e namorar. É um medo maior. De depois disto tudo ficar de mãos atrás das costas, sem saber o que lhes fazer.

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