} Avançar para o conteúdo principal

Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Meu pai. Pai dos meus filhos. Pais.

Nunca saberei o que é ser pai. O que sentem os pais. Os de antes e os de agora. Se para eles é igual ao que é para nós, mães, mulheres. Se vivem as mesmas coisas mesmo quando às vezes (nos) parece que não. Se a intensidade é a mesma. Nalgumas coisas, em tudo.
Sei a importância do pai. A imensa importância que tem. Porque sou filha, vejo como o meu pai me influenciou em tantas coisas e em como as recordações são tão fortes desde tão cedo.
Via-o como um gigante. Enorme. Exigente mas com as melhores brincadeiras. Fazia-nos rir e envergonhava-nos ao mesmo tempo quando decidia ser criativo no meio da rua. Contava-nos histórias de pombos chamados Alberto que se passeavam no Chiado. Pedia na caixa de supermercado para embrulhar frangos, oferecia-nos gelados se tivéssemos coragem de fazer coisas, como ir falar ao Presidente da República na praia ou andar 6km pelo areal. Dizia que eu (ora eu ora os meus irmãos) éramos os melhores "trazedores de roupões", os melhores a tirar gelo ou a ir buscar o comando ou a ir entregar cassetes ao clube de vídeo. E nós íamos, ao engano e orgulhosos!
Sei a importância do pai. A imensa importância do pai, quando vejo o meu marido com os meus filhos. Como eles o vêem, falam dele, admiram e querem constantemente a sua aprovação. E têm-na, de graça e por tudo e por nada. 
Que o pai os aplauda, os elogie, lhes dê atenção. 
Dizem que o pai tem mais influência e/ou importância nos filhos e as mães nas filhas. Não sei. Sei que o pai tem um papel gigante nesta casa. Quando está e quando não pode estar. Que eles o amam perdidamente e que vêem nele um exemplo, o repetem, o veneram. Sei que, quando estou sozinha com eles, sentem imensa saudade. Vejo nos olhos deles a desilusão quando sabem que o "pai hoje vem tarde" e a alegria desmedida quando o "pai já chegou". 
O pai não é secundário. O pai é tão importante como a mãe. Imensamente importante. Em tantas coisas. Na maneira como vive a sua vida, como encara os problemas, como reage, como ama. O pai é o pilar, a torre, a meta, o barco. 
É nele que todos se agarram se a casa abana. É nele que todos se seguram se as coisas tremem. É nele que todos confiam quando sentem medo, insegurança. O pai tem o maior abraço e o colo mais alto. 
E é lá em cima que o vêem. Sempre.

Um beijinho ao meu pai e à minha mãe por já não terem pai. Às vezes esqueço-me que só por serem mais velhos não o torna mais fácil. À minha sogra que cresceu sem pai e nem imagino e ao meu marido por todas as razões e mais alguma. 

Comentários