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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

Dêem-me um minuto

Não gosto nada de ser substituída no meu papel de mãe. Embora às vezes precise e aceite ajuda, faço-o a maior parte das vezes porque tem que ser.
Quando saio para desanuviar respiro fundo e descanso mas apresso-me sempre para voltar.
Sabem-me bem os tempos que tenho para mim e para mim e para o meu marido mas nunca me custa voltar a casa. Voltar para eles.

O problema são acima de tudo as fases dos nossos filhos aliadas à rotina. À repetição. Às obrigações.
Quando as fases deles se unem ao cansaço dos dias, tudo se complica. É nessas alturas, quando tudo se mistura, que mais sinto vontade de desaparecer um bocadinho. Às vezes só um minuto. 

Quando um chora porque quer colo, o jantar fica ressequido na panela, o outro precisa de uma palavra qualquer de incentivo e o outro organizou todo um espectáculo e o público sou eu e só eu. São os dias em que respirar fundo não chega. A paciência não surge nem dá para relativizar mais nem pôr em perspectiva nem inventar manobras de diversão para que o universo se recomponha. 

Há dias em que o caldo está entornado e eles sabem. Topam a milhas. Estamos ali a meio gás e a rezar para que o sol caia, a noite se ponha e a porta se feche. Sem rancor. Sem peso na consciência,  sem medo do dia a seguir. Só cientes da nossa humanidade e dos nossos limites. 

Quando reconhecemos isso, dá para baixar os braços,  respirar fundo, dizer boa noite com um sorriso na cara e abrir os braços pela manhã. 

Bom dia meus amores. Dormiram bem?

Comentários

  1. ❤️, tal e qual...às vezes é mesmo só um minuto de silêncio que precisamos.. 🙈🙉🙊

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