Não conseguir ler um filho

- então? Como é que foi a escola?
Depois desta pergunta há várias hipóteses. O filho que começa a debitar informação até mais não, aquele a quem tem que se arrancar a ferros meias palavras e o que diz o suficiente para satisfazer a curiosidade dos pais.
Todos os dias tento sacar informação e saber o que se passa nas suas vidas. E no seu coração.
Insisto conforme o seu estado de espírito. Se vejo que estão tristes preocupa-me saber o porquê. Se estão felizes quero saber - também - o que os faz sorrir. O que mais me assusta no entanto é o silêncio. Que tento respeitar mas que me angustia porque fico dependente da minha perspicácia,  do meu sexto sentido, do meu instinto e da minha sensibilidade. E não gosto de depender só de mim para os ler.
Tenho medo que me escape aqui e ali e que do nada rebentem bombas. Primeiro as pequeninas dos primeiros anos. Depois as outras.
A Mãe só gosta do mano! A Mãe nunca brinca comigo. A Mãe nunca me leva a lado nenhum. A Mãe não me ouve. A Mãe é má.
Às vezes eles largam verdades e outras injustiças que tento na maior parte das vezes contextualizar mas é para mim humanamente impossível esquecer e desvalorizar. Fico a pensar nisso. A pensar se me divido irmamente e de forma justa. Se estou lá para todos. Se os olho nos olhos. Se os vejo. Se lhes dedico atenção.
Preocupa-me que mesmo com todo o tempo que tenho para todos que não tenha tempo para algum. Que alguma coisa me passe ao lado ou que não tenha distanciamento para os entender. Para ler nas entrelinhas.
Vivo a contar com os pequeninos sinais que me vão dando e com a segurança de ser a sua a mãe.
Mas às vezes isso não me chega e esse é o enorme desafio. Conseguir sempre e chegar onde os seus sentimentos estão. Longe ou perto. Mas chegar lá.

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