Sou a mulher que critiquei

Já fui essa pessoa muitas vezes. Mãe ou não mãe. Sempre que disse eu nunca,  baixei as guardas e depois fiz exactamente o mesmo.
Mas esta mulher eu critiquei muito.
Quase nunca em voz alta. Quase sempre para dentro. Mas o suficiente para hoje  me envergonhar e pedir desculpa.
Quando fui mãe pela primeira vez e apesar do instinto estar lá e ter sido a minha salvação, não sabia muita coisa. Aliás muito pouco. Não sabia nada sobre alimentação, nada sobre nutrição,  sobre imunidade, sobre laços, vínculos, hormonas, sobre recuperação pós parto, não sabia nada de nada sobre um monte de coisas que hoje sei mais um bocadinho. Fui evoluindo. Com eles. Com os meus filhos. Com as pessoas que me ensinaram mais sobre um mundo que de certa forma desvalorizei.

Sobre a amamentação. 

Na minha ideia dar de mamar era no máximo nos primeiros 6 meses. Sempre fui persistente e nunca tive nenhum problema em amamentar mas daí até prolongar a coisa era um enorme caminho. A minha educação não foi assim. No meu grupo de amigas não é comum e sempre encarei a amamentação como uma forma fácil (para mim) eficaz e económica de alimentar um bebé. 

Fui muito ignorante achando que a amamentação e o leite materno ofereciam ao bebé imunidade nos primeiros 3 meses e depois disso era para engordar e depois não havia nada que justificasse continuar. 

Aquelas coisa da organização mundial de saúde recomendar o leite materno até aos 2 anos estava escrito para os países sub nutridos e de terceiro mundo. Achava eu.

Curiosamente nos primeiros 3 lugares de países em que as mães mais amamentam estão a Noruega, a Eslovénia e a Suécia. (Fonte: Save the Children).

Apesar de a amamentação garantir nesses países a sobrevivência de milhões de crianças, vai muito além disso. Dei de mamar 1 ano e 11 meses à minha terceira filha. Durante 1 ano e 11 meses ela mamou. No primeiro mês de duas em duas horas porque não engordava. Nos 5 meses seguintes também em exclusivo. No tempo que restou até há uns dias como calmante,  para adormecer, para curar feridas, ciúmes, medos, preguiça para fazer o pequeno almoço,  como lanche, ceia. Para tudo e para nada. 

Há quase 1 ano que dorme toda a noite e que não lhe dou de mamar de madrugada. Bebe leite de arroz antes de dormir e só acorda no dia a seguir.

Fui passar fins de semana fora. Fui ao cinema e jantei em restaurantes e até bebi um copo ou outro. O meu marido não se separou de mim e não me deixou de ver como mulher. Os dentes dela não me magoaram (tirando uns 2 dias em que me estava a desafiar), não me despiu/"envergonhou" em público. Não ficou mais mimada nem abebezada nem exigente. Não foi nada dramático nem cinematográfico e por isso tão incrível. 

Sei, porque já fui essa pessoa, que muita gente estranhou e estranha, que os vínculos se criam de igual forma com ou sem amamentação mas que este vai ser um orgulho que vou levar comigo para a velhice e passar aos meus filhos.

Primeiro vou dizer-lhes que a pressão funciona para todos os lados. Que é mais tranquila a mãe que não amamenta e que se mantém sã do que a que sofre luta e se deixa ir na obrigação de ter que o fazer perdendo-se de si mesma e do seu bebé. Que os bebés crescem e se tornam adultos felizes e que disso não está dependente o leite. Mas o amor.

Depois que é preciso viver, passar por isso, para poder falar sobre o assunto. Qualquer assunto. Que julgar se vira contra nós e que é tão melhor quando vamos sem medo. Sem pressões e sem preconceitos acima de tudo.

Que por ter passado por cima disso ganhei o mundo. E que esse mundo é tão mas tão difícil de explicar. Não há pediatra nem organização nem médico hospital ou enfermeira que defina isto que se vive. A não ser que tenha passado pelo mesmo. Que se podem escrever todos os porquês. Todos os prós e todos os contras. Todas as justificações científicas para o sim e para o não. Todas as sondagens. Todas as opiniões. De nada vai servir. 

Só a mãe. Só o bebé. 

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