Do que nos lembramos da nossa infância?

Tenho ideia que a ideia que se tem da infância é um bocadinho vaga. Não é nada concreto. Tenho uma ideia geral e momentos particulares. Histórias que vivi, que me contam. Sei o elementar. Os primeiros dentes e passos e quando andei e o meu feitio e se acordava cedo ou tarde.
O que sentia. Como me sentia. Não sei.  Na verdade não sei que criança fui.  Tenho imagens de coisas que vivi.  De aventuras. Mas não sei se fazem parte da minha memória, se de histórias que me contaram. Aliás, quando tento pensar em mim, ver-me sem ser em fotografias, sentir o que fui, só me lembro dessa criança com 8 anos. Antes, não existo para mim.  Não sei grande coisa acerca dessa criança que fui.
Levar os meus filhos até à idade em que efectivamente se irão lembrar de serem pessoas é de um peso e ao mesmo tempo de uma leveza que ainda me pergunto como Deus ou o universo foi capaz de colocar em mim/em nós.
Levo-os/levamo-los até aí,  a esse lugar de memórias esperando apenas que cheguem lá seguros, felizes e cheios de espaço e capacidade e alma para guardarem o resto da vida, que tenham ferramentas e armas para o que der e vier e que guardem a certa altura tudo aquilo que lhes dermos, no coração.
E que saibam que foram crianças incríveis, sensíveis, desprendidas, que cada um à sua maneira teve momentos mais difíceis em que precisámos de estar mais atentos, dar um empurrão maior, pegar mais vezes ao colo, dar abraços mais apertados, ficar ali ao lado na cama mais um bocadinho mas que os vossos olhos nunca me fizeram duvidar do nosso amor nem da nossa vontade de fazer parte das vossas boas memórias.
Desde o primeiro dia.

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