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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

Adultos, temos que ter uma conversa

Quando era pequenina não havia cá de responder ao pai ou à mãe. Aos avós então nem se falava. As brincadeiras eram contidas e o respeitinho "é bom e eu gosto".
Não levantava a voz, não desafiava. A distância entre mim e os adultos era colossal. Com tudo o que isso tem de mau, porque tem, ensinou-me uma das lições mais importantes e que todos os dias transmito aos meus filhos. O respeito pelos mais velhos.
Mas também lhes ensino uma coisa ainda mais importante, o respeito que devem ter, sempre, por si mesmos.
No outro dia, à espera que um parque abrisse disse à minha filha mais velha, 6 anos,  que fosse perguntar ao senhor, o responsável do parque quanto tempo faltava. Ela correu até ele e aos saltos para lhe chegar à altura e aos ouvidos dizia: desculpe senhor! Quando abre o parque? Mas a insistência de uma criança não chegou ao coração do senhor que a ignorou completamente.
Ao longe gritei para que voltasse, que o senhor era mal educado.
Mais velho que ela, mais velho que eu, mal educado.
- mãe, porque é que ele não me respondeu? Fingiu que eu não estava ali...
- não sei querida, é parvo. Foi até onde chegou a minha capacidade didática.
Dentro do mesmo parque, já lá dentro, estavam  vários grupos escolares em colónias de férias. Não foi numa grande cidade e por isso sei que as realidades não são todas iguais,  ainda assim chocou-me a falta de respeito - para dizer o mínimo - das professoras/educadoras para com os miúdos.
"És burro?", "Queres que te faça um desenho?", puxões, castigos sem nexo, gritos. O tom constante dos gritos.
Repito, sei que as realidades não são todas iguais mas é por todo o lado que ouço os adultos queixar-se que "isto já não é como dantes" e que "agora é tudo uma grande falta de respeito".
Pergunto como é que era antes?
Como é que ensino um filho a ter sempre respeito e educação para com uma pessoa mais velha se eles vêem,  todos os dias, essas mesmas pessoas a portarem-se pior que um miúdo?
Primeiro não sou perfeita e depois não me posso ter tanto em conta para acreditar que eu, o pai e o núcleo duro da vida deles vamos ser os únicos exemplos de adultos à sua volta. E os que eles vêem na rua, se cruzam no autocarro, a quem pedem um gelado, a quem vão entregar uma coisa que caiu?
Quando não têm resposta, um obrigado, um olhar amigo, quando não há nada do lado adulto o que posso exigir à minha criança?
A vida às vezes azeda-nos. Há problemas. Tristezas, realidades inacreditáveis mas não se deixa de olhar nos olhos de um miúdo. Ganha-se o mundo sempre que o fazemos.

Comentários

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