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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

Saudades de ser mãe de um bebé

Andei a ver fotografias antigas porque estava a escrever sobre como me pavoneei durante anos sobre a saúde dos meus filhos e agora ando caladinha que nem um rato. A verdade é que é tudo tão passageiro que não entra para as contas.

O que senti ao andar para trás no tempo, mais do que saudades deles pequenos, foi algumas saudades minhas como mãe de um bebé pequeno. Apesar das dificuldades todas que sinto ao início, não há momento em que me sinta mais orgulhosa e feliz.

Não tem nada a ver com lógica, logística, razão, consciência ou planeamento familiar. Nem sequer tem a ver com o coração ou a vontade. Nada disso entra aqui neste lugar.

Está arrumada a questão - sem unanimidade - mas está. Mas só porque uma coisa esteja decidida não quer dizer que deixe de existir.

Os meus primeiros meses como mãe foram sempre duros. Agora, olhando para trás acho que aguentei mais areia do que cabia na minha camioneta. Chorei, sofri um bocado, senti-me às vezes sozinha e cansada mas nunca em causa esteve o outro lado, o lado mais importante e bonito daquele caos todo.

Os partos, a amamentação, o colo, o cheiro, o mimo. Aquele andar nas nuvens que nos permite tudo. Que nos obriga a muito mas que nos abre tanto o coração.

Adoro ser mãe. Independentemente de ser boa ou má mãe, de ter tantos defeitos, de poder ser muito melhor do que sou, sei que é parte do meu desígnio, talvez maior do que todos os outros. Não nasci para ser mãe mas fui tão bem ensinada por cada um deles. Fui e estou a ser. Mas aqueles primeiros meses fizeram-me sempre crescer, sentir-me forte, capaz, resistente. Eu a responsável por todas as suas conquistas. Orgulhosa.

Hoje o orgulho vai todo para eles, porque cheios de mérito avançam sem precisar (tanto) de mim. Essa mãe vai-se perdendo. Vão nascendo outras, igualmente importantes, mas de forma diferente. De uma forma que ao olhar para trás deixa muita saudade. 

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