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Apresentados

Episódio 1 - O espelho

Tinha à volta de 40 anos quando se começou a aperceber da vida. Ao mesmo tempo que parecia cedo, também lhe parecia tarde.Até lá, corria tudo com mais ou menos problemas, mais ou menos histórias para contar. Todas essas pequenas histórias se juntaram naquele dia para lhe mostrar a pessoa em que se tornou. Não era mal nem bem. Era aquilo.Cada bocadinho de história ia dar ali. A um corpo. Custava estar de frente para si mesma e pousar em cada assunto de si. Tinha de ser. Era hora. Aquele momento parecia-lhe uma corrida de carros, cada instante a passar mesmo ali à sua frente.O nascimento, a sua infância, a morte dos avós, separações, mudanças, casamento, filhos, trabalho… Um atrás do outro a juntar-se em monte numa só pessoa.Parecia-lhe muito. Não demais, mas muito.Percebeu também que cada memória tinha um peso e era perfeitamente capaz de as dividir. As leves acabavam por ser as que ocupavam um espaço mais importante, as gargalhadas, os passeios na praia, as coisas que não se compartim…

Será que os educamos mesmo da mesma maneira?

Sempre soube que independentemente do número de filhos e de serem rapazes ou raparigas os ia educar da mesma maneira. Ou pelo menos tentar. Educar da mesma forma tendo em conta o seu feitio, a sua personalidade, a sua sensibilidade.

O que eu esperava era ser a mesma mãe, agindo conforme o que eles mostrassem ser necessário. E hoje percebi, que muitas vezes isso não aconteceu. Ou não vi. Ou julguei mal. 

Quando saímos de Lisboa a Leonor e o Zé Maria continuaram na mesma escola durante algum tempo. A certa altura surgiram vagas para uma escola mais perto de casa e lá os mudamos. A Leonor a começar o primeiro ano e o Zé Maria o primeiro ano do pré escolar.

Foi uma enorme mudança para todos e foi um início de ano difícil, muito medo que não se dessem bem, toda a expectativa da mudança, o enorme desejo que fossem felizes na nova escola. 

A Leonor entrou com 6 anos, o Zé Maria com 3. Ainda usava chucha. Era, para mim, um bebé. 

Deixei-o na escola no primeiro dia até ao meio dia. Ele não chorou. Nem uma lágrima. No dia a seguir almoçou e dormiu. E pronto. Foi esta a adaptação. 

A Luísa, entrou com 2 anos e demorou 2 ou 3 meses a adaptar-se. Ou eu. Que fiquei lá na sala dela dias aos quais perdi a conta. A fui buscar antes de almoço durante semanas e só lá dormiu passado um mês. 

Não sei como nem porquê mas fui uma mãe diferente com eles. E sei que muitas vezes sou, sem querer. Sou irmã do meio e tento - muito - ser cuidadosa com O Zé Maria. A Luísa nasceu quando ele tinha 2 anos e 3 meses. Está entre duas miúdas e 80% dos seus dias são passados com mulheres. Tento ser justa e não exigir dele mais do que pode dar. Ou do que quer. 

Sei que às vezes falho nisso. A Luísa fê-los crescer de um dia para o outro. Todos cresceram no segundo em que ela nasceu e no entanto, na realidade, estavam exactamente do mesmo tamanho e eram exactamente iguais. Com 4 e com 2 anos. 

Claro que todos reagem de forma diferente e ainda bem que o Zé Maria se adaptou com facilidade mas sei lá eu se ele simplesmente se resignou, se não teve alternativa senão aceitar aquele primeiro dia e todos os seguintes. Sei lá eu se não precisava de mais tempo, mais colo, mais mãe. 

Às vezes faz bem ter a noção de que não estamos sempre certas, não fazemos tudo bem, falhamos. Com um ou com outro, com todos. 

Sei que muitas vezes falho e não vivo a culpar-me por isso mas vivo a pensar em como posso ser melhor e a minimizar essas falhas. 

Hoje está tudo mais equilibrado e a idade não faz diferença. Percebi que precisam sempre de tempo, de compreensão e de colo. E prefiro dar sempre a mais do que a menos, pelo sim pelo não. 

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