Comprámos o tempo

Dos temas de que mais falei aqui e no meu velhinho blog que está só e abandonado foi sobre a gestão do nosso orçamento sendo que só um trabalha efectivamente. Ou melhor, só um recebe efetivamente. 

Não passamos dificuldades no sentido honesto da palavra. Para mim, no meu entendimento isso seria não ter o que comer, não conseguir pagar contas ao final do mês. Não ter roupa para vestir durante o frio. Não ter dinheiro para medicamentos. O resto é acessório.
Ainda nos damos ao luxo de ter alguns luxos. Temos ajuda em casa, pagamos pelas escolas dos nossos filhos. Às vezes, muito menos do que gostaríamos, jantamos fora e fazemos uma escapadinha de duas noites, cá dentro, pelo menos uma vez por ano.  Fazemos férias de 3 semanas espalhadas pelos meses de verão e Setembro é o mês mais difícil do ano exactamente por isso. 
Não há subsídios de férias nem de Natal. Não temos casa paga. Nem carro pago. Nem seguro de saúde pago. 
Gerimos o dinheiro da melhor forma que conseguimos e às vezes gastamos em coisas parvas, supérfluas e inúteis mas que na altura nos parecem essenciais. Às vezes pagamos para não ter chatices e para nos facilitar a vida, principalmente quando estamos os cinco juntos. 
Ao contrário do que se pensa para um não trabalhar não significa que se seja rico. Significa que se abdica de algumas coisas como da independência - que tem um custo imensurável, da carreira, do crescimento profissional em troca de tempo. 
Nós comprámos o tempo. 
Pus de lado uma vida em publicidade e o meu marido trabalhou com a pressão de ser ele a âncora disto tudo, não pode ser fácil. Em troca de tempo para criar uma família, para estar presente, para fazer parte de todos os momentos e ser a bóia para todas as salvações. Os médicos, as consultas, as reuniões, as doenças, as férias da Páscoa, Carnaval, Verão, Natal. As reuniões até tarde, as idas para fora do país, os horários malucos, as noitadas. Não é preciso pensar em qualquer alternativa quando o comboio sai da linha, porque a mãe está. Esta foi a moeda de troca ao ordenado fixo e a provavelmente uma vida (um bocadinho) mais desafogada.
Não sinto que alguma vez tenha deixado de trabalhar. Há anos melhores que outros a nível financeiro mas desde o dia em que a agência onde estava fechou que tenho vindo a arranjar alternativas, nem sempre regulares infelizmente. 
Quando não as tenho, é porque a casa precisa mais de mim ou porque assim tem que ser e apertamos mais um cinto com mais ou menos stress. 
Há reversos em todas as opções. E provavelmente nenhuma opção é a ideal. Ou falta tempo ou falta dinheiro ou faltam os dois... Não faltar nenhum é o ideal e aquilo pelo que andamos todos atrás. 

Comentários

  1. Não leves a mal o meu comentário, mas parece-me que tens uma vida largamente desafogada... se só com um ordenado ainda se consegue ter ajuda doméstica e ter os filhos (plural) no privado, acho que felizmente já te encontras muito depois da linha dos muito desafogados/ privilegiados. :) E isso é muito bom. Não há margem para interpretações de "sentir dificuldades". Eu adoro trabalhar, e provavelmente ia sentir a falta caso não o fizesse, mas é realmente é um luxo enorme uma pessoa do casal poder prescindir do ordenado. E atenção, com dois ordenados não temos luxos (incluindo empregada domestica, e filhos no privado, que quando os tivermos, obviamente é um rotundo não). E há pessoas ainda pior que têm que contar tostões para as contas do mês (as obrigatórias) e para alimentação. Poder comprar tempo é já por si um luxo :) Beijinhos e gosto muito do teu blog e insta

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    1. Gostei do artigo, bem escrito e honesto, mas gostei mais ainda do comentário.
      Há uma ou duas gerações atrás, a mulher não tinha um emprego, mas também não havia os luxos de hoje. Não ter um emprego significava ter que servir o marido e os filhos a tempo inteiro.
      Hoje em dia uma mulher não trabalhar (ter um emprego) por troca do seu tempo é um verdadeiro luxo, que em nada tem a ver com que se passava há algumas gerações atrás.
      Sobretudo quando é suposto o homem ter um papel igualmente ativo na educação dos filhos.
      Resumindo, concordo que não trabalhar já é um verdadeiro luxo, que só faz sentido se todos os bens essenciais já estiverem assegurados.

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