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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

A Luísa ainda está na barriga

A Luísa nasceu com as mãos na cara. Com as mãos na boca. Com as mãos coladas ao corpo.
Se a Luísa fosse a primeira é possível que confundisse muitos destes gestos com fome.
A Luísa continua com os joelhos colados à barriga, enrolada.
Chora muito quando sai do banho e atira cada braço para seu lado, só parando de chorar quando a aperto na toalha e contra mim. 
A Luísa gosta de adormecer ao colo depois de mamar,  de dormir colada a mim. Que lhe fale ao ouvido. Acalma com uma festa na testa, um beijinho, uma mão por cima da barriga.
A Luísa ainda está na barriga. É assim que leio todos os seus gestos de sobressalto, toda a sua necessidade de mim.
E sinto o mesmo que ela.  Já nasceu mas ainda estou grávida. Ainda estou sensível,  ainda com outro corpo, ainda estou só eu e ela apesar do mundo.
A Luísa ainda está na barriga e eu ainda a sinto aqui.
A querer que o tempo se demore e que não deixe passar nada. Que a veja crescer devagarinho, que a perceba, que entenda os seus sons, os seus pedidos. Que não signifique nada para as suas necessidades, ter irmãos.  Que eu esteja lá apesar deles. Que eu esteja lá, com eles.
Ainda estamos as duas assim, necessitadas uma da outra, coladas, uma.
Sei que este tempo vai. Que eu tenho que perder o peso da gravidez e voltar ao que era.
Mas por enquanto e enquanto puder vou mantê-la aqui neste colo mais calmo, nesta barriga.

Comentários

  1. Perfeito, uma só... enquanto for necessário enquanto ambas o desejarem 👏👏

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