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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

As crianças precisam de ser entretidas

Sim.
Isto vai contra todas as teorias da nova era da educação. Em que se deve educar com liberdade, brincar com liberdade, comer com liberdade, vestir com liberdade, fazer tudo o que se possa calcular com liberdade.
Pois. Eu acredito que quem um dia se lembrou sequer de pensar nisto, estava sentado, a ler um livro, de copo na mão. Provavelmente bêbado. E não em casa com três filhos, um cão, um porquinho da Índia e dois peixes.
Sou pela liberdade. Desde sempre. Que devem crescer com ideias próprias, com a possibilidade de ter opinião, de poder duvidar, contrapor, explicar. Ser eles mesmos. Imaginar, criar, explorar, mexer nas coisas.
Mas fora de casa.
Quem inventou essa teoria - porque são precisas mais teorias que façam as mães sentir-se cada vez mais um traste com elas mesmas - vivia no campo, tinha empregada 12 horas por dia, uma casa ampla, fácil de arrumar, refeições preparadas. E não em casa, com filhos de férias há dois meses, com um tempo incerto. Assumo e abraço toda essa liberdade retirando-as de casa, onde espalham, sujam, reviram, mexem, arriscam. Podem ser livres na praia, no jardim em qualquer lugar que não me obrigue a estar de rabo para cima, já sem costas e sem paciência a apanhar todos os brinquedos que espalham sem critério.
Sim, as crianças devem arrumar o que desarrumam. Mais uma teoria perfeita para filhos perfeitos. Os meus, com 1, 3 e 6 anos arrumam o que conseguem, o que sabem e o que estão para aí virados.
Em casa, as coisas complicam-se. A liberdade deles tem limites ou a minha acaba por completo. E mesmo quando crio regras, me zango, ando atrás deles, nem tudo corre como esperado e a casa acaba invariavelmente virada do avesso.
Por isso, nas
férias, nos dias de mau tempo, quando um deles está doente e temos que ficar todos em casa, fechados a gerir vontades, brincadeiras e afins cedo pouco a teorias, faço o que posso e sei, mando um berro ou outro, faço exigências e controlo disfarçadamente a liberdade deles. 
Às vezes, esquecendo todos os anos de estudo de pediatras e mentores da educação moderna, protegendo um bocadinho a pessoa sã que ainda resiste em mim e que também merece descanso, digo:
- meninos, e se vissem um filme?

Comentários

  1. Acredito em educar promovendo a autonomia das crianças, mas também reconheço que nem sempre isso pode ser fácil, ainda para mais com mais do que um filho... Há que "gerir a crise" como eu costumo dizer. Uma casa vivida tem desarrumação, por mais que isso possa custar ao nosso lado mais obsessivo-compulsivo. As crianças (e também os adultos) nem sempre interiorizam as regras à primeira, leva o seu tempo e também cada um acaba por gostar de organizar o seu espaço à sua maneira. Mas o que interessa é não acreditar piamente em todas as correntes, teorias e afins que se lêem e adaptá-las à nossa realidade, à nossa medida e à nossa família. Já nos bastam todas as regras que temos de seguir fora de casa... Se as transportarmos todas para dentro de casa, de olhos fechados, não vamos viver e o tempo para aquilo que é verdadeiramente importante perde-se. Bom post! :)

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