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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

A Mãe dá beijinho e passa

O Zé Maria às vezes cai e faz fita. Sei perfeitamente que não doeu. Está mais cansado por exemplo.
Ou às vezes ele sabe. Ele sabe que depois de uma queda ou de se entalar ou de tropeçar bater com o pé com o cotovelo ou com a cabeça leva um beijinho e um abraço. E pode estar só a precisar de mimo.
A Luísa quando se magoa num dedo pede beijinho nos dois. Se se magoa num pé pede beijinho nos dois. E eu, influenciada pela ternura ainda lhe dou um abraço. 
A Leonor "já" com 6 anos às vezes cai (tantas vezes que ela cai) esfola joelhos tropeça bate com o dedo mindinho nas pernas das cadeiras e sabe que pode vir a correr que lhe dou um beijinho e um abraço. Às vezes, se me esqueço porque a coragem dela tanto me orgulha como me demove porque a vejo levantar-se imediatamente e seguir caminho, volta para trás e diz que "a mãe nem sequer me deu um beijinho". E eu dou. Claro que dou.
Ao longo do dia perco a conta aos beijinhos e aos abraços que dou à custa de quedas e de dores. E penso neste poder que os pais têm de curar com um beijo e no desejo imenso e sem sentido que tenho que este poder dure para sempre.
Para sempre os vou curar com um beijo, é o que eu penso sem saber o que lá vem.
Os amores e essas dores. As desilusões,  as grandes frustrações, os medos.
Para sempre os vou curar com um beijo. A adolescência as amizades as inseguranças as tristezas.
Pegar neles e dar um beijinho na mão e se for preciso outro, no coração.

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