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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Saudades do dia em que tu nasceste

Fui ao meu hospital, consulta de rotina. Ao lugar onde uma, duas e três vezes a minha vida mudou.
Ao meu lado, no check in entrou uma senhora para fazer o internamento. Estava nervosa e feliz, preocupada porque não tinha tido tempo para ler todos os consentimentos que tinha que assinar. O marido, ao lado dela, parado a entregar-lhe papelada e a olhar para o vazio. Adorava saber o que se passava na cabeça dele. Na dela, acho que sei. Ou pelo menos sei o que eu pensei naquela altura.
No dia em que tu nasceste o dia mudou para depois mudar a vida inteira. No dia em que tu nasceste esteve sempre sol. Eu estava frágil e imensamente forte numa antagonia como nunca antes. Se me pedissem para andar 100 metros provavelmente não conseguiria, no entanto tinha força para dar e vender para que nascesses em três tempos. Para ficar acordada nas 24 horas seguintes, só ali, a ver-te. Para passar por algumas dores.
No dia em que nasceste senti uma adrenalina imensa maior que qualquer uma até hoje. Medo. Orgulho. Tremi e ansiei que chegasses numa expectativa que não se repete, a não ser ali. No dia em que tu nasceste.
O coração encheu-se de uma forma que nem o coração explica. E tudo aconteceu num determinado segundo que fica para sempre gravado na memória.
O cheiro. O choro. O colo. O toque.
No dia em que tu nasceste senti um orgulho em mim como poucas vezes. Como fui capaz de te trazer na minha barriga durante 9 meses, alimentar-te, fazer-te crescer. Como fui capaz de te trazer depois ao mundo quando já era hora. Como fui capaz de te segurar naquele dia para nunca mais te largar?
Nesse dia respirei. Soube que todas as minhas dúvidas se foram quando te peguei ao colo e te abracei e te agradeci. Chorei sempre nesse dia. Agradecida por estares ali ao meu e ao nosso colo, seguro.
Soube nesse dia que há amor e que depois há o amor por um filho. Compreendi a minha mãe e o meu pai e toda a minha vida. Cresci. E regressei.
No dia em que tu nasceste aconteceu tudo. E fazer acontecer a vida não se esquece.
Vou para sempre lembrar-me desse dia. Aquele em que tu nasceste.
Parto da Leonor - 30 de Julho de 2011


Trabalho de parto Zé Maria - 7 de Março de 2014

Parto da Luísa 21 de Junho de 2016


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