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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Protegê-los

Ando com eles pela rua de mão dada e olho à minha volta. São 3. Parecendo que não entre um salto e outro pode vir um carro. Eles nem sabem que eu tenho e vivo com o radar ligado. O braço pronto a amparar-lhes as quedas.
Sopro a sopa quando ferve. Abraço-os se está frio. Puxo-os para a sombra se me esqueci dos chapéus. Dou a mão a descer os degraus. Ponho os cintos. Tapo-os a meio da noite e uso as mãos para que o shampoo não lhes arda nos olhos.
Ponho um penso na ferida. Pego ao colo quando lhes dói o pé para andar. Ponho a mão no canto da mesa quando os vejo directos a ela. Encosto-os a mim quando vem uma ventania e uso o meu guarda chuva para não se molharem muito.
Faço o que posso para os proteger das coisas que eles não sabem ou não podem ainda controlar e que eu por enquanto,  sou capaz.
Depois há o resto. E isso não está nas minhas mãos.
Posso muni-los. Dar-lhes tudo o que tenho para que se consigam defender sozinhos. E faço-o. Sempre que posso e consigo.
Quando vêm da escola sem saber bem porque se sentem mal. Porque até gostam da escola mas "aquele menino bateu-me e aquele chamou-me feio e deu-me um pontapé e é mau e está sempre a chatear-me e ninguém quis brincar comigo".
Quando conhecemos os nossos filhos não precisamos de perguntar quem começou. Sabemos se nesse dia quer atenção. Está a exagerar. Precisa de mimo.
Já sabemos pela cara deles.
Desde tão pequeninos sabemos que só não podemos protegê-los das pessoas. Das pequenas pessoas para começar. São eles que têm, sem se corromperem, que aprender a fazer frente às pessoas. A empinar o nariz. A fazer peito. A fingir não querer saber. A não ter medo. A não ligar. A fazer-se de forte. A olhar em frente. A seguir caminho.
Damos-lhes tudo para a mão quando saem de casa. O amor, os beijinhos, a confiança e a educação. E esperamos que isso tudo chegue. Que ser bom não irrite o mau. Que ser tímido não chateie o extrovertido. Que ser alegre não irrite o sério. Esperamos tudo. E que eles passem pela escola felizes e sem sentirem que nos preocupamos demais. Que queríamos também controlar isso e ir lá dar um caldo a quem o fez tropeçar de propósito.
Queríamos que fossem infantis.
Queríamos que fossem capazes.
Queríamos que fossem livres.

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