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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Dêem-me um minuto

Não gosto nada de ser substituída no meu papel de mãe. Embora às vezes precise e aceite ajuda, faço-o a maior parte das vezes porque tem que ser.
Quando saio para desanuviar respiro fundo e descanso mas apresso-me sempre para voltar.
Sabem-me bem os tempos que tenho para mim e para mim e para o meu marido mas nunca me custa voltar a casa. Voltar para eles.

O problema são acima de tudo as fases dos nossos filhos aliadas à rotina. À repetição. Às obrigações.
Quando as fases deles se unem ao cansaço dos dias, tudo se complica. É nessas alturas, quando tudo se mistura, que mais sinto vontade de desaparecer um bocadinho. Às vezes só um minuto. 

Quando um chora porque quer colo, o jantar fica ressequido na panela, o outro precisa de uma palavra qualquer de incentivo e o outro organizou todo um espectáculo e o público sou eu e só eu. São os dias em que respirar fundo não chega. A paciência não surge nem dá para relativizar mais nem pôr em perspectiva nem inventar manobras de diversão para que o universo se recomponha. 

Há dias em que o caldo está entornado e eles sabem. Topam a milhas. Estamos ali a meio gás e a rezar para que o sol caia, a noite se ponha e a porta se feche. Sem rancor. Sem peso na consciência,  sem medo do dia a seguir. Só cientes da nossa humanidade e dos nossos limites. 

Quando reconhecemos isso, dá para baixar os braços,  respirar fundo, dizer boa noite com um sorriso na cara e abrir os braços pela manhã. 

Bom dia meus amores. Dormiram bem?

Comentários

  1. ❤️, tal e qual...às vezes é mesmo só um minuto de silêncio que precisamos.. 🙈🙉🙊

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