} Avançar para o conteúdo principal

Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Não poder tomar conta

É muito fácil deixar as coisas importantes para trás. O dentista. O oftalmologista e até a depilação. Coisas pequeninas que vão ganhando tamanho e perdendo o seu espaço com o passar do tempo. Com o nascer dos filhos. Com o avanço da idade.
Normalmente não falhamos as consultas dos miúdos nem nos esquecemos que anualmente precisam de um check up.
Desde que me lembro que não respiro pelo nariz que ressono e que me canso sem estar realmente cansada. Fui adiando até uma simples gripe me causar muitas dores de cabeça daquelas que sobem até aos olhos e se alojam ao lado do nariz.
Sabia perfeitamente que tinha sinusite mas confirmei com uma consulta e um TAC e também renite. Em conversa com o médico decidimos que melhoraria muito a minha qualidade de vida realizar uma septoplastia e uma turbinoplastia. Avancei sem medo porque pensei apenas na minha vida depois da cirurgia.

Demorámos a escolher uma data que não coincidisse com picos de trabalho do meu marido nem com fins de semana marcados nem com datas de anos importantes e com disponibilidade de parte da família caso fosse preciso apoio.

Isto tudo para chegar aqui. A cirurgia correu bem. A minha cara ficou um bolo. Um olho muito inchado o nariz do tamanho de um pêssego. E mais dores do que esperava. Dores de cabeça, do nariz, boca completamente dormente. Enfim um role de queixumes que não são para aqui chamados.

O importante é o resto. Sei que a família é também para estas coisas - obrigada - mas o que me custa estar deitada a ver tudo a acontecer é indescritível. Já me arrependi várias vezes por ter avançado e ter obrigado toda a gente a tirar do seu tempo para me ajudar.

E depois eles... Não há nada que me custe mais do que não me sentir disponível nem capaz para eles. E sei que tudo é passageiro e que não tarda estamos (ainda melhor) nas nossas rotinas e vou ter olfacto e sonos descansados. Mas enquanto esse tempo não vem e eu estou aqui a fingir que "não dói nada" para eles não se impressionarem, custa. 

Espero que estes dias passem depressa. Tenho dormido muito talvez por defesa e "diz que" os primeiros 3 dias são os piores. 

Daqui a nada pego neles para um mergulho de mar uma corrida na areia e um beijinho sem fim. 


Fotografia: The Love Project
Camisa: Dream Catchers
Miúdas: Le Petit Chiffon

Comentários

Publicar um comentário