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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

O que faria de diferente

Todos os meus partos correram bem. Vendo hoje, e tendo a minha ideia de um parto perfeito mudado com os tempos, todos eles tiveram coisas menos boas.
Da Leonor, a minha primeira filha, as águas rebentaram quando estava de 39 semanas e 6 dias e era o meu sonho. A minha fantasia. Como nos filmes.
Olho para as fotografias dela nos primeiros minutos de vida e vejo-a tão vestida. Sabia lá o que era pele com pele. Lembro-me que ela esteve breves minutos no meu colo e eu não estranhei nada. Estavam só a vesti-la e eu não a queria com frio, por isso tudo certo.
Fui aprimorando as minhas vontades. E a minha médica sempre me ouviu. Nunca mais levei um toque por exemplo e isso fez muita diferença na forma como encarei o final das gravidezes, sem medo.
No parto do Zé Maria rebentaram a bolsa manualmente ou mecanicamente ou lá como se diz e odiei. Aquela sensação de bebé desprotegido sem mão da natureza angustiou-me. Mas também nunca disse que não o queria fazer.
Não tinha curiosidade em experimentar um parto sem epidural mas morria de medo pelas dores que me causava a injecção. Era o meu maior medo de todo o processo de trabalho de parto. Resolvi esse assunto à terceira quando avisei logo que tinha muito medo e se podia conversar um bocadinho com o anestesista. Assim foi, e zero dor. Ele salvou aquele momento e acho que nunca me vou esquecer da sua cara.
Nas consultas disse à minha médica que gostava, se fosse possível, de ser eu a tirar a Luísa. Na altura nem me lembrei no meio da adrenalina mas ela não se esqueceu e assim foi. Directamente para o meu colo. E ali ficou.
Nunca tive um parto traumatizante, não sei o que isso é. Tive pequenas coisas. Coisas se fosse hoje faria um esforço para referir durante as consultas, para exigir caso fosse preciso. Para evitar. 
Nunca passei por uma cesariana nem pelas dores - que me dizem - que provoca depois. Nunca passei por médicos antipáticos. Não sou muito boa nos confrontos nem em dizer não, mas acho que nos três partos consegui contornar algumas das normas de forma subtil e tenho orgulho da forma que fiz nascer os meus três filhos, mesmo que hoje, fizesse um bocadinho diferente. 
A Leonor estava ainda com as mãos roxas e eu a ser cosida, lembro-me de a querer agarrar o mais que podia, de me sentir forte e orgulhosa. Não senti nunca que alguma coisa estivesse errada e hoje, apesar da minha ideia de um parto perfeito se ter modificado um bocadinho, quando vejo estas fotografias só sinto paz. 


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