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Apresentados

episódio 2 - no corredor

Atravessou o corredor a medo. Era isso ou acordar novamente a irmã. O corredor era tão escuro que lhe parecia impossível a uma criança. As tábuas faziam-se notar a cada passo e ela preferia atravessá-lo em pressa do que se demorar por ali. Deviam ser uns 4 metros que lhe pareciam 12. Respirava fundo e ia de olhos fechados como se isso a protegesse do medo. O medo era de nada. Só do escuro, do desconhecido, do caminho, de não saber o que estava do outro lado.  Mesmo já tendo passado ali com a luz do sol. Quando chegava era bom e era mau porque era obrigatório voltar. Já sabia que nada se passava e que era só um caminho e mesmo assim voava para chegar o mais depressa possível. No dia a seguir era igual. Todos os dias.O mesmo corredor escuro. Todos os dias a luz da manhã a fazer esquecer a noite. As manhãs serviam para lhe descansar a alma e se rir de si mesma. Tinha a certeza que à noite não haveria medos porque estava tudo ali, tudo o que era para existir, tudo o que fazia realmente par

Saudades de ser mãe de um bebé

Andei a ver fotografias antigas porque estava a escrever sobre como me pavoneei durante anos sobre a saúde dos meus filhos e agora ando caladinha que nem um rato. A verdade é que é tudo tão passageiro que não entra para as contas.

O que senti ao andar para trás no tempo, mais do que saudades deles pequenos, foi algumas saudades minhas como mãe de um bebé pequeno. Apesar das dificuldades todas que sinto ao início, não há momento em que me sinta mais orgulhosa e feliz.

Não tem nada a ver com lógica, logística, razão, consciência ou planeamento familiar. Nem sequer tem a ver com o coração ou a vontade. Nada disso entra aqui neste lugar.

Está arrumada a questão - sem unanimidade - mas está. Mas só porque uma coisa esteja decidida não quer dizer que deixe de existir.

Os meus primeiros meses como mãe foram sempre duros. Agora, olhando para trás acho que aguentei mais areia do que cabia na minha camioneta. Chorei, sofri um bocado, senti-me às vezes sozinha e cansada mas nunca em causa esteve o outro lado, o lado mais importante e bonito daquele caos todo.

Os partos, a amamentação, o colo, o cheiro, o mimo. Aquele andar nas nuvens que nos permite tudo. Que nos obriga a muito mas que nos abre tanto o coração.

Adoro ser mãe. Independentemente de ser boa ou má mãe, de ter tantos defeitos, de poder ser muito melhor do que sou, sei que é parte do meu desígnio, talvez maior do que todos os outros. Não nasci para ser mãe mas fui tão bem ensinada por cada um deles. Fui e estou a ser. Mas aqueles primeiros meses fizeram-me sempre crescer, sentir-me forte, capaz, resistente. Eu a responsável por todas as suas conquistas. Orgulhosa.

Hoje o orgulho vai todo para eles, porque cheios de mérito avançam sem precisar (tanto) de mim. Essa mãe vai-se perdendo. Vão nascendo outras, igualmente importantes, mas de forma diferente. De uma forma que ao olhar para trás deixa muita saudade. 

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