Só agora percebi o quanto o queria


O mês passado, quando fizemos 11 anos de casados, e já completamente ciente do resultado, fiz um teste de gravidez e deu positivo.
Eram 5h30 da manhã. Mandei uma mensagem à minha médica em pânico porque já tenho 40 anos e desorientada com o resultado ao que me respondeu: "Mariana, que todas as notícias inesperadas sejam de um bebé".
Não dormi mais até o António acordar e lhe contar o resultado em lágrimas.
Estive os 2 anos seguintes após o nascimento da Luísa com muita vontade de ter um quarto filho. Decidimos no entanto que não iria acontecer e talvez no último ano tenha aceitado que a nossa "conta" estava feita.
Não esperávamos mas aconteceu e nunca pensámos em alternativa alguma senão ter este bebé com todas as dificuldades que também considerámos. A casa, o dinheiro, as escolas, a nossa independência, a nossa idade, os riscos envolvidos. A nossa dinâmica estar já tão fluida e natural. Tanta coisa que pesava "contra" nós.
Mas a ideia foi crescendo e todos os meus sintomas também. 
Decidimos guardar para nós e obviamente não contar aos miúdos nem a ninguém com tudo o que isso tem de bom e também de difícil. Às 6 semanas e antes de ir para o Minho tive umas cólicas e resolvi ir ao hospital porque no dia a seguir me esperava uma grande viagem de carro sozinha com os miúdos. Estava tudo bem mas a médica que me viu disse que estava de 4/5 e não de 6 semanas. Que precisava de descansar e não fazer esforços. 
Achei realmente estranho porque conheço bem o meu corpo, os meus ciclos, mas não tinha perdas e as cólicas melhoram com analgésicos e sei que é possível as contas não baterem como esperado e estar tudo bem na mesma. 
Tinha consulta às 8 semanas e tive momentos entretanto em que pensei que era possível não estar grávida mas depois os enjoos, o sono, as maminhas muito maiores e novo teste de gravidez (daqueles que dizem as semanas), até herpes tive (que tenho sempre nestas alturas) davam-me esperança e certeza e agi sempre como se estivesse grávida. Os suplementos, as vitaminas, o cuidado com os alimentos mal lavados, o álcool, pegar nos miúdos, as massagens que adiei e os treinos que também pus de lado. Foi o mês mais comprido da minha vida. Todos os dias acordei invariavelmente às 5h30 da manhã - e ainda acordo. Em todas as minhas ações e em todos os meus pensamentos estava esta gravidez.
Estávamos com medo que a idade trouxesse problemas mas tirando isso estávamos cada vez mais mentalizados para tudo aquilo que iria implicar ter mais um filho. E felizes. Apesar do medo, o meu coração estava cada vez mais animado. Como não estar feliz com a perspectiva de um bebé? 
Fui para a consulta sozinha, o António ficou no carro (Covid) e eu ia mandando mensagens da sala de espera e ligando. Estava triste porque eu ia ouvir o coração primeiro e sem ele, e eu respondi "se Deus quiser". Levei o telemóvel para poder filmar e lhe mandar logo para que pudesse estar o mais perto possível daquele momento. 
Entrei na consulta e fui vista pela minha médica que nem precisou de me dizer nada. Pus o telefone de lado. Olhei para aquele ecrã e não o vi. Vi um saco vazio um bocadinho maior do que na primeira ecografia e com qualquer coisinha lá dentro que não chegou a ser um bebé e muito menos um bebé de 8 semanas e uns dias. A minha médica, sempre incrível comigo e que estava igualmente entusiasmada com esta gravidez, explicou o que se tinha passado. 
Vesti-me e sentei-me para conversarmos. Perguntou como estava o meu coração e desabei. O meu coração partiu-se em mil bocados para lá de todas as lógicas. Já tenho 3 filhos, a natureza é sábia, a idade potencia possíveis problemas, tudo o que é racional e lógico morreu ali como a esperança.
Já tínhamos decidido não ter mais filhos mas o universo, o acaso, a falta de cuidado, o destino, Deus, o amor, deram-nos esta possibilidade e naquele dia fugiu. Desapareceu do nosso destino, dos nossos planos. 
Já passei por isto mais vezes, na verdade já vi um teste positivo 6 vezes, um aborto espontâneo, uma gravidez bioquímica e agora uma gravidez não evolutiva. Mas desta vez doeu mais do que nunca. Acabou com a possibilidade de cumprir uma vontade tão grande, que julgava já não ter. Ou de cumprir um sonho guardado. 
Não interessa se é o primeiro, segundo, décimo. Dói igual. Doeu especialmente mais desta vez. 
Muito mesmo, e aos dois. 
Inevitavelmente penso em várias coisas. Que posso ter sido imprudente em engravidar, que poderia ter feito as coisas de forma diferente, ter mais cuidado, ter ficar deitada ao início... Qualquer coisa. Depois penso também que a natureza sabe como agir quando as coisas não estão bem e que nos deu essa sorte, que talvez tenha sido um sinal e que preciso de me resolver de forma mais eficaz, mais profunda. Achava que estava tudo resolvido e aparentemente não. Nem pouco mais ou menos. 
Sinto que agora tenho muito mais para tratar, para curar, para resolver do que alguma vez tive e isso também me entristece e me angustia. Abri uma ferida com que já convivia tão bem. 
Sei que o normal é relativizar quando já se tem filhos e três é aquele número que toca o limite do exagero e eu percebo isso mas é como se imaginassemos que o nosso último filho nunca chegava a nascer, em como seria a vida sem um deles. Nem imagino. E é exactamente assim que vivo uma gravidez. Com amor. Com entrega. Com responsabilidade, alegria, esperança, vida. 
E é exactamente de forma oposta que me sinto agora. A ser obrigada a continuar a vida como se nada se tivesse passado e obrigatoriamente agradecida pelo que tenho como se ter uma coisa invalidasse a perda de outra. 
Agora choro às escondidas, no intervalo de estar para os meus adorados filhos, sem que vejam, sem que percebam, a desculpar-me com a "Mãe está só cansada", a gerir a expectativa de que a natureza continue a fazer o seu trabalho para que este ciclo se possa fechar e eu possa fazer as pazes com tudo isto, e comigo também. 
Quero mentalizar-me de que às vezes não cumprimos todos os sonhos e não me sentir obrigada a estar resolvida só porque isso é o esperado de mim, da situação, do panorama. Quero ter esse direito, porque os filhos não são número. Nunca foram.
Sinto arrependimentos que guardo para mim e sei que vou ter que viver com isto com a certeza de que o mundo relativiza. Eu não. Dou mesmo muita importância, mesmo que isso me faça sofrer. Vou precisar dessa dor para seguir caminho. Para ser e fazer os meus felizes.
Tenho sido uma mãe assim assim na última semana e espero que os meus filhos me perdoem um dia quando lhes contar sobre isto. E quero explicar-lhes também que sim, que devemos erguer os ombros, respirar fundo e seguir caminho. Mas só depois de chorar, de fazer pazes e de sofrer também. 

Comentários

  1. Doi ler e nem foi nada comigo. Acompanho-a há muitos anos, fico feliz com as conquistas, preocupo-me nas ausências ... Fiquei triste de saber que estão a passar por isto. Espero que cure mais esta ferida, no tempo que tiver que ser, e que tudo corra pelo melhor. Um abraço apertadinho Maria Ana.

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  2. 💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙💙

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  3. Beijinho muito grande e muita força! O tempo ajudará a sarar, recuperar e a seguir em frente 💗

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  4. Muita força! Percebi que algo se passava. A torcer por si mais do que nunca 💓

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  5. Muita força! Percebi que algo se passava. A torcer por si mais do que nunca 💓

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  6. Passou-se algo similar comigo logo na primeira gravidez e ao ler este texto revejo-me nos sentimentos por entre as linhas. Doeu muito à data e ainda dói mas agora como se fosse uma velha cicatriz que se sente sempre que se toca.
    Penso que a dor nos torna humanos e que só se a soubermos viver é que a "resolvemos". Espero que esse seja um percurso breve para si! Um abraço!

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  7. Não imagino a dor pela qual está a passar mas o meu coração está conosco. Um filho é sempre um filho seja ele o primeiro ou o quarto e aí dá que seja só do tamanho de um feijãozinho. Um abraço apertado

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  8. Um xi-coração muito apertado nos vossos corações. Nas orações inclua todos os seus filhos. Agora um anjo da guarda para cada um dos que pode abracar com os braços. Os outros estarão sempre abraçados a si, ao seu coração Muita força!

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  9. Fala-se muito pouco de perdas numa fase precoce. Supostamente é "normal", dizem os médicos e as tradições, mas na verdade nunca esperamos que nos aconteça a nós. E digo nós porque infelizmente partilhei da mesma experiência. Perda às 8 semanas, depois de uma primeira eco duvidosa às 6. Nunca ouvi o batimento cardíaco, provavelmente nunca existiu. Agarrei-me a isso para me reconfortar. Tentei ser fria: não era um bebé, eu não perdi um filho. Mas perdi sim. Raramente falo disso a alguém mas sei que me compreende. Nem sequer foi planeado, nem sequer aceitei bem quando descobri, mas numa questão de dias já estava muito ansiosa e feliz. Consegui controlar-me e não contar ao meu filho de 9, que até hoje pensa que fui ao hospital porque me" dóiam as maminhas". Aguardei que corpo fizesse a expulsão naturalmente, mas não aconteceu. As dores eram insuportáveis, tudo foi resolvido nas urgências. Foi horrível. Mentalmente é duro, fisicamente também. Quando falamos cá em casa há sempre lágrimas. Já havia espaço no nosso coração para este bebé. Desculpe o extenso desabafo e obrigada por me permitir fazê-lo. Um abraço

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  10. Lamento a sua perda...

    Quando tudo estiver mais calmo passe em
    https://instagram.com/circuloperfeito_?igshid=9nrqtywtw92w

    Trata-se de uma página dedicada à saúde menstrual, úteros, hormonas, períodos e outros temas relacionados.
    ❤️

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  11. Um beijinho grande ❤ vais encontrar forças e o teu caminho, tens uma família que te adora.

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  12. Um beijinho grande ❤ vais encontrar forças e o teu caminho, tens uma família que te adora.

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  13. Muita força Ana! Tive quatro gravidezes não evolutivas e tenho 30 anos... A natureza sabe o que faz ��

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  14. Muita Força.. tambem me aconteceu algo do genero na segunda semana de quarentena num país virado do avesso. Nada me fez duvidar que fosse este o desfecho pois corria tudo bem, sem sintomas que pudessem supor que iria ter um aborto retido. Fizemos um luto de um mês. Chorei todos os dias porque nao ia ter nos braços o meu primeiro bebé. Mas acredito que Deus sabe de todas as coisas. Fiquei uma pessoa diferente depois disso. Hoje estou gravida novamente, com uma gravidez de risco e a ter muito cuidado com tudo o que faço. Acredito que Deus me vai dar alegrias no futuro. Queria te dizer que idade não impede na concretização de um sonho. Sei que agora é um dia de cada vez mas ficará sempre no nosso coração aquele bebé. Muita força e muitos beijinhos.

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  15. Já a sigo há algum tempo mas nunca lhe escrevi. Hj senti que devia. Nunca passei por isso mas tenho 2 filhos e entendo que tudo o que esteja a sentir é mais que legítimo. Muita força. Chorar também é necessário para poder seguir em frente. Um beijinho grande. Gosto muito de si e da forma como escreve. Força❤️

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  16. Também tenho três filhos e também tive 6 testes de gravidez positivos. Antes de ser mãe pela primeira vez tive um aborto espontâneo, depois tive um rapaz lindo, depois tive uma gravidez não evolutiva - que me custou imenso - e depois tive um aborto espontâneo, que foi terrível, porque foi seguido, e depois tive um rapaz lindo e ainda depois uma princesa. Custou-me sempre muito as perdas, falei sempre com naturalidade e sei que apesar de tudo, sou uma privilegiada porque tenho 3 filhos maravilhosos apesar de ter uma doença que se chama endometriose que provoca muita infertilidade. Força e depois das minas perdas sempre achei que se as gravidezes tinham ficado pelo caminho era a natureza a ser sábia...

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  17. Lamento sua perda, obrigada por partilhar algo tão íntimo, mas que acontece a muita gente. Essa partilha com certeza ajudará muitos casais.

    ❤️

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  18. Lamento muito, muito. Desde o momento em que sabemos que eles existem, o amor instala-se, e nem damos bem conta. Mas depois foge-nos o chão de debaixo dos pés e percebemos a dimensão. Tenhamos 0, 1, 2, 3, 5, 10 filhos. Cada um é único e insubstituível e temos todo o direito de fazer o nosso luto (e ser "ao início" não tem de amenizar nada). Nem somos ingratas por "pelo menos já tens 3, devias estar agradecida". Claro que bendizemos a existência dos nossos outros filhos a cada minuto, mas isso não apaga a dor do vazio que fica ♡ força *

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  19. Maria Ana, não se culpabilize. Como disse a natureza é sabia. Eu passei por 2 gravidezes não evolutivas. Sempre quis ter mais de 2 filhos. Uma vez desabafei essa vontade com uma amiga dizendo - lhe que com 41 anos se calhar já não iria concretizar essa vontade e ela respondeu - me "Olha eu tenho 44 e vou ter o 7o!" Aquilo ficou a ressoar cá dentro, encheu - me de esperança e a verdade é que aos 42 nasceu o terceiro. Nunca se sabe...

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  20. Querida Maria Ana,

    Há muito que não vinha ao blog, confesso.
    A facilidade dos instagrams....o tempo ou a falta dele, a vida.
    Mas apenas lhe queria deixar um beijinho no 💙 e dizer-lhe que entendo cada uma das suas lágrimas .
    Perdi 3 bebés. Dois....gémeos.
    Às 12 e 8 semanas.
    As pessoas - na melhor das intenções, acredito - diziam : a natureza é sábia.
    Mas...a dor era de tal modo, que dei por mim a NÃO conseguir olhar o que quer que fosse que me remetesse para bebés.
    Mas....como A Catarina Beato sempre diz, " a vida resolve -se sózinha ", numa metáfora que tanto significa.
    A alma serenou.
    A dor....apaziguou.
    E já contei à minha filha que, na verdade, ela não é filha única.
    Para sempre....sou mãe de 3.
    Abracinho apertado.
    Coragem.
    Fé.
    Amor de quem lhe quer bem.

    🤍🌿

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